É possível hoje uma carreira de pesquisadora sem vínculo com instituição de ensino?

Adriana Meis
9 min readApr 2, 2020

Segunda-feira passada, o programa Roda Viva, da TV Cultura, teve como tema a pandemia de coronavírus que nos assola. O entrevistado não era professor de renomada universidade, como sói acontecer nestes casos, mas sim um divulgador científico. Biólogo, com doutorado e pós-doutorado, grande autoridade no assunto, Atila Iamarino não tem aquele status que, no Brasil, é quase obrigatório para quem almeja conquistar reconhecimento como pesquisador: o vínculo empregatício como docente de uma instituição de ensino superior.

Foi justamente essa situação, ainda mais atípica para nós, da área de humanidades, que fez uma colega propor a questão: “qual a possibilidade hoje de se ter uma carreira respeitada sem estar ligado a uma instituição?”

A pesquisa é uma das “pernas” da tríade formada também pelo ensino e pela extensão. Isso significa que, em uma universidade, o cargo de professor inclui atividades: 1) de “dar aula”, as mais comumente associadas a esse cargo; 2) de pesquisa sobre temas que, com maior ou menor grau, têm a ver com aqueles ministrados nas disciplinas ou desenvolvidos na extensão; 3) da própria extensão, que é a promoção ou operação do conhecimento junto às comunidades acadêmica e aquela externa à universidade, para benefício delas e da formação humana do estudante. A formação do estudante, portanto, deve (deveria?) se sustentar nessas três “pernas”.

De forma bastante generalizada e desconsiderando as exceções, em termos institucionais o que se vê é uma grande valorização da pesquisa pela comunidade docente, especialmente a das instituições de ensino superior (IES) públicas, e pelas agências de fomento. Já as IES privadas tendem a valorizar mais o ensino e a extensão. Operando na lógica comercial, o que materializa o serviço das IES privadas, ou seja, aquilo que é compreendido e percebido pelo público consumidor (o estudante, sua família, as empresas que vão contratá-lo), é a aula e os projetos que iniciam os alunos na atividade profissional. A pesquisa, não tendo essa mesma visibilidade — e há muitos fatores para isso, alguns deles de nossa (pesquisadores) responsabilidade –, não recebe a mesma atenção ou investimento.

Vale dizer que cada professor pode ter mais afinidade ou competência para uma das três “pernas” da tríade, assim como ocorre com profissionais de outras áreas, com suas próprias tríades (ou quadríades etc.). Se a afinidade do professor é com a “perna” mais valorizada pela sua IES, melhores condições de trabalho ele vai ter, e o oposto também acontece. Assim, pode haver uma certa torcida de nariz, nas IES públicas, aos professores menos afeitos à pesquisa; já nas IES privadas, os com mais perfil para a pesquisa talvez penem para desenvolver essa parte do seu trabalho.

Apesar dos ranços, preconceitos e lógicas que esbocei acima, nenhuma das “pernas” é em si mais importante do que a outra. A pluralidade de perfil profissional em uma instituição serviria para equilibrar a distribuição das competências, proporcionando ao estudante a experiência dos três aspectos da sua formação. Por exemplo: em uma IES pública e naquelas privadas em que a remuneração do professor prevê horas para atividades que não aquelas de sala de aula, um docente pode destinar mais horas para pesquisa, outro mais para a extensão, articulando assim o equilíbrio.

E na IES que só remunera o “dar aula” e, eventualmente, a extensão, e não prevê horas e outros apoios de pesquisa para seus docentes? Nesse caso e nessa IES, a formação do estudante terá menos sustentação, pois uma das “pernas” será mais curta. E o docente que deseja fazer pesquisa precisará desenvolver essa atividade “por fora”: sem remuneração ou, se tiver sorte, remunerada por outras fontes que não a do seu emprego.

Se a possibilidade de construir e manter uma carreira na pesquisa é mais complicada nos casos em que o docente não tem essa atividade incluída no salário que recebe na sua IES, a situação piora bastante para os docentes-pesquisadores que, por escolha ou contingência, estão sem vínculo empregatício. Apesar da tríade que constitui a atuação de docência e pesquisa, a pessoa sem vínculo pode desenvolver a pesquisa ou oferecer seus conhecimentos à comunidade sem necessariamente estar dando aula. Ou, ainda, pode dar aula (em cursos de especialização, cursos livres) em um contexto e desenvolver as duas outras atividades em outro. No entanto, enquanto as aulas podem até vir a ser remuneradas como prestação de serviço, dificilmente o será a pesquisa. Existe ainda a situação em que, eventualmente, o profissional não deseja o vínculo permanente como docente, mas quer trabalhar com a pesquisa.

Considerando então essas duas balizas — no Brasil, a carreira de pesquisador, especialmente nas humanidades, raramente é separada da de professor; a atividade de pesquisa é mal ou não remunerada –, retomo a questão inicial: qual a possibilidade de um pesquisador ter uma carreira respeitada sem esse vínculo com IES?

Penso que a resposta divide-se em duas partes: a primeira trata da possibilidade de ter uma carreira; a outra, dessa carreira ser respeitada. Vamos à primeira.

A possibilidade de ter uma carreira em pesquisa diz respeito a você conseguir se sustentar (pagar contas, se divertir um pouco, investir no seu aprimoramento profissional) por meio da pesquisa ou de forma a poder, também, fazer pesquisa. Isso pode acontecer de algumas formas:

  1. você consegue um emprego como pesquisador/a em alguma entidade do primeiro, segundo ou terceiro setor;
  2. você consegue prestar serviços de pesquisa para entidades;
  3. você consegue uma bolsa-auxílio para desenvolver sua pesquisa, seja em um estágio de pós-doutorado, seja por meio de algum edital;
  4. você divide seu tempo entre algum trabalho remunerado e o trabalho de pesquisa, não remunerado.

Incluo no item 4 o caso de pesquisadores que vivem da monetização de conteúdo, porque esse conteúdo, seja em forma de material didático, seja em forma de blogs ou vídeos, demanda trabalho e conhecimento técnico para sua produção, divulgação e comercialização.

Exceto pela alternativa 3 (que é temporária e não sustentável), nas demais você só poderá, em pequena ou em grande parte, desenvolver a “sua” pesquisa por fora. Ou seja: a sua remuneração paga um outro trabalho (que pode até ser gratificante e desejado), mas não paga a pesquisa. E, se não paga a pesquisa, as horas destinadas a ela serão retiradas de algum outro lugar: do seu descanso, das suas férias ou do trabalho remunerado, que por isso será menos remunerado, o que pode afetar de maneira importante a sua subsistência.

Em que consiste todo esse trabalho de pesquisa? A pesquisa em humanidades depende bastante da leitura, da reflexão, da discussão e da escrita; e, depois, da apresentação dos resultados em eventos e a sua publicação em livros ou em periódicos. Mas o trabalho do pesquisador vai além dessa parte. Ele envolve a contribuição para a comunidade científica como um todo, e isso inclui, por exemplo, emitir pareceres para artigos submetidos por seus pares aos periódicos; emitir pareceres para obras a serem publicadas por editoras universitárias; organizar coletâneas de livros e edições especiais em revistas acadêmicas; ler os trabalhos e fazer arguições em bancas de mestrado e doutorado; frequentar as reuniões e os eventos em que a área apresenta e discute as suas produções; dar minicursos e palestras; e, certamente, outras tarefas aqui não descritas.

A participação nas atividades da comunidade científica é uma condição para o estatuto de pesquisador, porque a pesquisa em si, como vimos, envolve diversas etapas, nem todas protagonizadas somente pelo próprio pesquisador. Além disso, é a avaliação dos pares que chancela a “sua” pesquisa, e é por isso que a “sua” pesquisa, mesmo que não seja desejável para ser contratada por alguma empresa ou entidade — ou seja, mesmo que não seja considerada “útil” por certos critérios –, tem relevância conferida pela legitimação daquela comunidade. Obviamente, existem distorções nesse ecossistema, que não vou explorar agora.

Dito isso, voltemos à questão da remuneração da pesquisa. O professor-pesquisador cujo contrato de trabalho prevê horas remuneradas para a atividade de pesquisa recebe — mesmo que pouco, muito abaixo do devido e merecido, e mudar isso é algo pelo qual é preciso brigar — para realizar esse trabalho. E o pesquisador que não recebe horas de pesquisa em sua IES? E, ainda mais complicado, o pesquisador que nem vínculo empregatício tem, que não poderá contar com qualquer tipo de apoio, nem mesmo horas de trabalho “abonadas” para participar de congressos — já que horas em congressos são horas em que não trabalha na sua atividade remunerada, ou seja, horas pelas quais não recebe?

A defesa da pesquisa em nosso país passa pela defesa da universidade pública, sem qualquer dúvida. Mas não deve parar nela. A universidade pública, com todos os problemas e os constantes ataques, ainda é o contexto que oferece melhores condições para a realização da pesquisa. Os números mostram isso; porém, ao contrário do discurso que se espalhou (inadvertidamente, tenho certeza) algum tempo atrás, não é apenas na universidade pública que se faz pesquisa no Brasil. Ela acontece também, a duras penas (e, eventualmente, com enfrentamento político a certos gestores), nas IES privadas. E ela também acontece na comunidade formada por pesquisadores sem vínculo empregatício com IES.

Infelizmente, do jeito que a coisa anda, essa comunidade de pesquisadores com pouca ou nenhuma remuneração para a pesquisa tende a aumentar. Antes mesmo da pandemia de coronavírus ter levado ao cancelamento ou adiamento de importantes e tradicionais eventos científicos agora em 2020, muitos deles já estavam a perigo devido ao baixo número de inscritos. Estudantes de pós-graduação perderam suas bolsas; docentes de IES privadas têm mais dificuldade para conseguir afastamento; muitos perderam emprego recentemente; e, bem, nós, os independentes, simplesmente não temos dinheiro para pagar inscrições, passagens e tudo o mais.

A não ser que a elite acadêmica brasileira deseje apenas se reunir entre si, discutir entre si, publicar entre si, será preciso considerar a situação de forma mais abrangente. Essa elite — as IES públicas, algumas IES privadas, as associações científicas — talvez precisem refletir sobre em que consiste a defesa da pesquisa no Brasil; refletir se não é o caso de rever algumas dinâmicas da nossa própria comunidade para que o pesquisar se torne sustentável e acessível mesmo a quem não consegue ter esse fazer remunerado em carteira de trabalho.

Talvez também seja preciso repensar o aspecto simbólico do estatuto do pesquisador independente, não raras vezes alijado de certas oportunidades ou contextos devido à ausência de um “sobrenome institucional” conferido pelo vínculo de docente. Entra aqui o aspecto da respeitabilidade, a outra parte da questão proposta neste texto.

Uma carreira respeitável seria aquela reconhecida tanto financeiramente como simbolicamente. Deixando de lado o primeiro fator, bem difícil de resolver agora, nos concentremos no segundo. Essa tal respeitabilidade viria, por exemplo, daquela chancela da comunidade que mencionei antes: se seu trabalho é aceito nos eventos, é publicado em periódicos, se você recebe convites para avaliar trabalhos dos seus pares, então o seu fazer pesquisador é legitimado e respeitado. No entanto, na prática, nem sempre isso se manifesta.

Ano passado fui apresentada a uma professora renomada, muito competente e ativa, grande pesquisadora e defensora da pesquisa. Ela perguntou o que eu fazia, eu disse que estava num pós-doutorado e também cursava a graduação em Letras. Ao que ela resumiu: “ah, então está só estudando”.

Na verdade, pesquisando e publicando (3 trabalhos completos em anais de eventos, 2 capítulos de livro, 3 artigos em periódicos, 3 artigos inéditos, uns 10 congressos, só nos dois anos do pós-doc), ministrando disciplina e minicursos, organizando eventos, dando parecer, co-orientando teses e dissertações — fora os freelas que bancaram minhas viagens e inscrições nos congressos, porque a bolsa não alcança isso.

Naturalmente, não falou por mal. Porém, suponho que ela não pense que essas atividades, realizadas no contexto de professora com vínculo institucional, pudessem ser descritas como “só estudando”.

É uma anedota recorrente para ilustrar o desconhecimento ou a desvalorização do trabalho do professor aquela situação em que o aluno pergunta se a gente também trabalha ou “só dá aula”. Mas os equívocos quanto à nossa atividade ocorrem igualmente entre nossos pares, mesmo que sem má intenção. Se o pesquisador independente tem dificuldade de ser legitimado — conseguir respeitabilidade — na própria comunidade, como cobrar isso do público em geral?

Então, respondendo à pergunta “qual a possibilidade hoje de se ter uma carreira respeitada sem estar ligado a uma instituição?”: creio que a possibilidade é bem pequena, a não ser que, ao mesmo tempo em que lutamos do lado fora por maior valorização da nossa profissão, também olhemos para o que pode ser melhorado do lado de dentro.

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