"A Grande Nuvem Cinza" denuncia uma situação, e não as pessoas afetadas por ela

Adriana Meis
5 min readFeb 19, 2018
Cena de "A Grande Nuvem Cinza". Imagem retirada do site da Tambor Multiartes.

Sexta-feira passada assisti o documentário "A Grande Nuvem Cinza", do curitibano Marcelo Munhoz (aqui uma boa resenha do filme), na sessão de abertura da Mostra 2018 em Transe.

Munhoz e sua equipe registraram por mais de um ano o cotidiano de famílias paranaenses envolvidas no cultivo de fumo. O filme é lento e cuidadoso como as etapas deste cultivo: encher as sementeiras (não sei se é assim que se chama) de terra, colocar uma semente em cada quadradinho, colocar as sementeiras em recipientes com água e depois na estufa, organizar as mudas na sementeira quando já estão maiorzinhas, plantar as mudas na terra, arrancar as flores, colher as folhas, secar as folhas e com elas formar buquês que depois serão prensados e levados às fábricas para a produção do cigarro. E em algumas destas etapas, a pulverização do veneno. Muito veneno.

Ao final da projeção, Munhoz falou sobre o filme e respondeu perguntas. Logo de cara, uma postura muito bacana: assumiu que sua intenção original, de fazer um documentário-denúncia sobre os efeitos do cultivo do fumo nas pessoas e no meio ambiente, teria caído por terra logo no início do projeto. A relação das famílias e da comunidade com essa prática era muito mais complexa do que a percepção incial.

Sim, um dos personagens do filme é uma pessoa que adoeceu por conta do veneno usado no plantio. E também parece que sentimos um sabor metálico na alface colhida num quintal, pois a cena anterior a esta era um close do veneno escorrendo pela planta de fumo e penetrando a terra (ainda que uma terra distante daquela da horta de alface).

Portanto, mesmo que a gente saia da projeção sabendo os (uso proposital do verbo como transitivo direto, pois "saber" e "sabor" têm a mesma origem) efeitos nefastos deste cultivo, fica também aquela admiração que se tem diante de um trabalho delicado, que exige paciência e habilidade, quase um tipo de artesanato. Este cultivo é o sustento destas famílias, é a força motriz da economia destas cidades, é a vocação de uma região. Para não perder tudo isso, a comunidade lida como pode com a toxicidade dos produtos químicos e das relações mercantis com a indústria fumígena.

Munhoz teve a sensibilidade de "denunciar" estes aspectos sem desqualificar ou desvalorizar os primeiros. E, com isso, acredito que ele tenha deixado uma mensagem que vale para outras iniciativas em que a comunicação (ou a pesquisa acadêmica) procura "ajudar" pessoas que se encontram em situações consideradas precárias ou prejudiciais.

Quando uma reportagem jornalística, uma campanha publicitária ou ações de propaganda procuram "denunciar" situações deste tipo, não é incomum que as boas intenções se percam em discursos que vitimizam e que desconsideram a autonomia das pessoas envolvidas naquela situações, ou suas tentativas de lidar com ela, ou as graves consequências que podem vir a sofrer por conta de uma reação aberta e imediata.

Isso não significa que os comunicadores, os intelectuais e os pesquisadores não possam e não devam tratar destes assuntos. Ao contrário. Os produtos comunicacionais e os estudos científicos dão visibilidade a tais situações, desnaturalizam a lógica que as mantêm, chamam atenção das instituições que precisam tomar atitudes para resolvê-las. Mas como fazer isso sem os efeitos colaterais que mencionei antes? Como não vitimizar, desqualificar, infantilizar ou até mesmo prejudicar as pessoas envolvidas em tais situações?

Penso que, em primeiro lugar, é preciso ter a mesma sensibilidade ou percepção de Munhoz: a história dele não batia com a história daquelas famílias, e ele decidiu seguir o caminho que elas apontavam para ele. É preciso conversar com as pessoas e ver como elas enxergam a própria situação; valorizar seus esforços para lidar com as dificuldades práticas, aquelas que permanecem depois que o comunicador, o pesquisador ou a ONG vão embora pras suas casas e vidas apartadas da situação-problema que pretendem denunciar; cuidar para não colocá-las como incapazes, como necessitadas de algum messias ou salvador que é o único detentor do saber sobre a situação e sobre a forma de resolvê-la.

E vamos combinar: tanto na comunicação quanto na pesquisa acadêmica, a tentação de assumir esse papel é grande, até porque frequentemente estimulada.

O segundo lugar tem a ver com as habilidades e comeptências que se desenvolve nestas duas áreas. Ou seja, o comunicador e o pesquisador podem capacitar as outras pessoas para que elas dominem as técnicas discursivas e de linguagem para falar sobre as situações que vivenciam. Em vez de dizer por elas, dar a voz e o lugar de fala a elas, para que falem por si próprias.

Parece-me que essas, hoje, são as grandes contribuições que a comunicação e as instituições educacionais podem oferecer para ajudar a mudar a situação de pessoas que se encontram em estado de vulnerabilidade social. De certa forma, "A Grande Nuvem Cinza" manifesta ambas.

Por si próprio, enquanto produto de comunicação, o filme não infantiliza e nem trata com condescendência as pessoas que vivenciam a situação-problema a ser "denunciada". E a história dessas pessoas — real, ainda que aspectualizada pelo ponto de vista do documentarista — mostra que a educação, especialmente aquela protagonizada pelas mulheres (uma menina, uma jovem, uma adulta), possibilita que a história comece a tomar outros rumos, mais benéficos para elas e para toda a comunidade.

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P.S.: um exemplo recente de "denúncia" que desqualifica as pessoas envolvidas na situação foi a recente reportagem de um veículo jornalístico que tratava da representatividade da pesquisa brasileira, usando como critério o número de citações de trabalhos científicos em periódicos nacionais e internacionais. De acordo com este critério, as 20 universidades às quais os pesquisadores brasileiros mais citados estão filiadas são públicas. O veículo interpretou este dado como: "Relatório mostra que universidade particular no Brasil não produz conhecimento".

Se a boa intenção do veículo é denunciar a precariedade das condições de pesquisa nas instituições privadas (ou nas instituições brasileiras, de forma geral), certamente o caminho não é esse. Primeiro, porque a chamada é falaciosa, para não dizer mentirosa (o relatório não diz nada disso). Segundo, porque mesmo em condições precárias ou, ao menos, "piores" do que aquelas das instituições públicas, os docentes e discentes de universidades particulares produzem conhecimento em quantidade e relevância (não seria até um mérito maior, diante da desigualdade de condições?).

Neste caso, a "denúncia" de uma situação-problema acaba por desvalorizar e desqualificar as pessoas nela envolvidas. Resta a dúvida, porém, se o veículo agiu assim por inexperiência ou por má fé. Torçamos para que seja o primeiro caso, e que a reflexão sobre o papel da comunicação quanto às "denúncias" possa evitar outros equívocos como este.

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