O jogo do amarelinho

Adriana Meis
4 min readDec 28, 2019

Em setembro deste ano, estive em Buenos Aires para um congresso. Era o último dia de viagem e meu voo de volta partia no fim da tarde. Pela manhã, decidi fazer algum passeio sem grandes comprometimentos turísticos. Visitar um mercado, talvez, mas algo um pouco mais distante da região central. No ótimo site de turismo da cidade, consultei as opções e escolhi o Mercado del Progreso, em Caballito, inaugurado em 1889.

Parece que o nome do bairro se deve a uma placa de ferro em forma de cavalo que sinalizava uma propriedade importante da região em fins do século XIX. Mais recentemente, o caballito aparece também como escultura.

Caballito é um bairro localizado a sudoeste na capital portenha, facilmente alcançado pela linha A (azul) do metrô. A estação fica justamente em frente ao mercado, na praça Primera Junta. Cheguei lá já perto da hora do almoço, quando o mercado fecha para reabrir às 17 horas. Dei uma volta rápida por dentro, admirei a fachada em estilo art déco recentemente restaurada e me concentrei numa atração inesperada: na praça distribuem-se barracas de livros usados que começavam a abrir no momento em que o mercado fazia sua pausa.

A bela fachada do Mercado del Progreso.

Não procurava nada em especial (na verdade, nem deveria comprar mais livros antes de ler os inúmeros ainda intocados que tenho em casa). Nestes casos — sebos, balaios de promoção — , prefiro que o livro me escolha, que ele chame minha atenção para alguma referência que compartilhamos. Foi assim que um certo volume, de capa feiosa, me atraiu. Era uma obra que reunia o romance El mistero del cuarto amarillo, de Gaston Leroux, e o conto "Emma Zunz", de Jorge Luís Borges, de uma editora chamada Cántaro, edição provável da primeira metade dos anos 2000. Interessante notar que estas duas obras foram publicadas originalmente em periódicos: o romance, em forma de fascículos distribuídos juntos com o jornal L'Illustration, em 1907, e o conto, na revista literária Sur, em 1948.

Esta foto é de um anúncio no Mercado Livre argentino, em que o preço do livro é 160 pesos. Paguei 80 pesos pelo meu volume em uma das barracas da feira da plazoleta Primera Junta.

"Emma Zunz" eu havia conhecido em 2018 durante um curso sobre Dalton Trevisan, porque o escritor curitibano escreveu um texto em que destaca certas inverossimilhanças na elaboração do colega argentino. Naquela ocasião, lemos a crítica do vampiro e também o conto criticado, e me apaixonei por ele.

Emma Zunz havia voltado em minha mente um dia antes da ida ao Caballito, durante um trajeto guiado, em bicicleta, por La Boca. Diante do estádio do Boca Juniors, nossa guia falou um pouco sobre a história do emblemático time e explicou a origem do azul e amarelo. No início, a equipe do Boca jogava com um uniforme branco e preto. Como era também a divisa de outra equipe, foi necessário mudar. Decidiram ir até o porto e adotar como novas cores aquelas da bandeira do primeiro barco que atracasse. Calhou de ser um sueco. No seu site o clube dá a mesma explicação.

La Bombonera, azul como a linha de metrô até Caballito, amarela como o quarto misterioso de Leroux e como os vitrais da casa de infância de Emma Zunz. Foto: Adriana Tulio Baggio.

A história de Emma Zunz se passa em 1922, mais ou menos uma década depois desta consolidação cromática. Borges situa claramente os locais em que a narrativa se desenvolve: Emma mora em Almagro (um pouco antes de Caballito), trabalha em uma fábrica na avenida Warnes (um pouco acima de Caballito) e realiza parte importante de sua tarefa na região portuária — justamente La Boca. Eu lembrava que o navio e o marinheiro que entram na história —como veículos da desonra— eram nórdicos, e ficou na minha cabeça a Suécia. De bicicleta, em frente ao estádio, pensei: será que Borges, que não gostava de futebol, quis fazer alguma referência ao Boca Juniors?

Abro o livro só agora, entre as festas de final de ano. Ele estava embalado em plástico e, por isso, tinha lido apenas a contracapa. Vejo que se trata de uma edição escolar, com uma introdução sobre a história e a teoria do gênero policial e sobre as obras contidas no volume, com maior destaque para Gaston Leroux e seu El misterio del cuarto amarillo. Grande e agradável surpresa esse paratexto informativo, já que tenho grande interesse pela teoria do romance de detetive. Ao final das duas obras, o livro apresenta também diversos exercícios com base nas narrativas e outras referências a serem trabalhadas com estudantes (de ensino médio, imagino) nas aulas de literatura. Que preciosidade!

Leio o policial de Leroux e depois revisito "Emma Zunz". O navio sobre cuja chegada Emma se informa no jornal é, na verdade, norueguês. Minhas hipóteses sobre a referência cromática naufragam, ainda que o marinheiro seja, segundo ela, sueco ou finlandês.

Nem por isso, o amarelo deixa de rondar todas essas referências: o quarto que é cenário do crime no romance de Leroux tem essa cor, assim como os vitrais da casa em que Emma passou sua infância e a faixa diagonal no peito dos jogadores do Boca Juniors.

Esta é a história do livro.

P.S.: se for visitar Caballito, um excelente local para almoçar é a Parrilla Caballito, bem próxima ao mercado. Restaurante tradicionalzão de bairro, com ótimo atendimento e pratos do dia com preços razoáveis.

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