Coisas que Boccaccio e Botticelli podem nos dizer sobre capitalismo e violência contra a mulher

Adriana Meis
10 min readNov 25, 2023
Nastagio degli Onesti (1483): pintura quádrupla de Sandro Botticelli baseada na oitava novela da quinta jornada do Decamerão (1353) de Giovanni Boccaccio. Os três primeiros painéis estão no Museu do Prado, em Madri; o último no Palazzo Pucci, em Florença.

Como se sabe, o Decamerão de Giovanni Boccaccio (1313–1375) é um conjunto de 100 novelas contadas por sete moças e três rapazes que se abrigam durante duas semanas em um castelo nos arredores de Florença para fugir da peste que assola a cidade em 1348. A narrativa do retiro dos jovens serve de moldura para as novelas. A cada dia, cada um deles conta uma delas: 10 jovens x 10 dias (sextas e sábados eles guardam como dias santos) = 100 novelas. Para compor as novelas, Boccaccio recorreu à tradição popular, ao cânone literário e à crônica da época, tomando como personagens tanto sujeitos históricos quanto lendários e fictícios.

No quinto dia do retiro, uma das moças, Filomena, conta a história de Nastagio degli Onesti. Nastagio é um jovem de Ravena que herdou a fortuna do pai. Ele se apaixona por uma filha de Paolo Traversari, homem de família ainda mais rica e nobre. Como essa moça o despreza, Nastagio começa a fazer loucuras e a dilapidar a fortuna. Seus amigos recomendam que ele saia da cidade para esquecê-la. Nastagio se afasta para um bosque nos arredores de Ravena e parece estar se recuperando. Um dia, testemunha nesse bosque uma cena terrível: uma moça nua é perseguida por um cavaleiro e por seus cachorros; quando os cachorros alcançam e imobilizam a moça, o cavaleiro traspassa seu peito com uma faca, depois a vira de bruços e arranca seu coração pelas costas, dando-o aos animais.

Nastagio tenta salvar a moça, mas ouve do cavaleiro que tanto ele quanto ela já morreram e a perseguição é a pena que ambos devem cumprir no inferno. Ele fora apaixonado pela jovem, mas ela o desprezara. Por conta disso ele se suicidou, e sua pena por esse pecado é perseguir e matar quem ele antes amara. A amada morreu pouco depois e foi para o inferno devido à crueldade e soberba demonstrada diante do pretendente. Sua pena é ser perseguida e trucidada. A repetição é uma componente do castigo, pois logo depois de ter o coração arrancado, a moça ressuscita e a perseguição recomeça.

O cavaleiro conta a Nastagio que o episódio acontece toda sexta-feira naquele lugar, o que dá uma ideia ao rapaz. Ele organiza então um banquete no bosque para a sexta-feira seguinte, no mesmo horário da perseguição, e convida a moça que ele ama e a família dela. O banquete se realiza e, durante a refeição, aparecem a jovem nua e o cavaleiro em seu encalço. Todos testemunham o que Nastagio vira na semana anterior, inclusive a explicação do cavaleiro. Resultado: a filha de Traversari, assustada, cede aos apelos de Nastagio e se casa com ele.

Como muitas das novelas do Decamerão, esta também serviu de tema para uma pintura. Sandro Botticelli* recebeu uma encomenda para representar a história em quatro painéis, oferecidos como presente do casamento a Giannozzo Pucci e Lucrezia Bini, realizado em 1483. Não se sabe ao certo se o comitente do trabalho foi o pai do noivo, Antonio Pucci, ou Lorenzo Médici, senhor de Florença e patrono de Botticelli. O conjunto de painéis é quase como uma história em quadrinhos. Os três primeiros quadros narram o “exílio” de Nastagio, a perseguição e o banquete com a família Traversari. O quarto mostra a festa de casamento entre Nastagio e a filha de Traversari, cujo nome não é informado por Boccaccio.

Os três primeiros painéis estão hoje no Museu do Prado, em Madri, e o último parece estar no palácio da família Pucci em Florença. No site do Museu do Prado é possível assistir a um vídeo em que a artista Marina Núnez comenta essas obras. Ela mostra que o casamento, nas narrativas de Boccaccio e de Botticelli, é uma afirmação da civilidade, do ordenamento social. Há um contexto desordenado, talvez até subversivo, que volta à ordem a partir do matrimônio.

Eu diria que isso fica ainda mais claro na tradução plástico-figurativa de Botticelli: nos dois primeiros quadros, as árvores demarcam uma forte presença da natureza; no terceiro — a cena do banquete com os Traversari — já há menos árvores e se nota claramente que o bosque foi desbastado. No quarto painel não há qualquer árvore: o casamento se realiza em uma construção erigida pela mão humana. Os quatro painéis comõem um percurso narrativo que vai da natureza para a cultura, da relativa liberdade da mulher até a sua domesticação, da barbárie à civilização.

Exploremos um pouco mais essa visão das coisas.

A domesticação pelo exemplo

A narrativa de Boccaccio sugere que as duas moças, tanto a morta quanto a viva, experimentam uma certa liberdade quanto às suas decisões matrimoniais. A morta recusou o pretendente até o suicídio dele: ninguém lhe forçou o casamento. O mesmo se dá com a moça viva: ela parece ter liberdade de recusar Nastagio, que não é um mau partido e se esforça para conquistá-la. Mesmo quando decide ceder-lhe aos apelos, é ela quem o comunica a Nastagio e depois disso é também ela quem comunica aos pais sobre a decisão. O que o texto mostra são mulheres fazendo escolhas para suas vidas amorosas, não se importando em adotar comportamentos que desagradam certos homens e que contrariam um ideal de personalidade feminina: generosidade, doçura, passividade, gratidão.

Talvez seja justamente esse estado de coisas — uma certa autonomia da mulher — que precise ser reordenado pela instituição do casamento. E o modo como isso acontece na história de Boccaccio condensa e sintetiza o modus operandi adotado pela Época Moderna para controlar os corpos e a crescente atuação social das mulheres que se verificava na Baixa Idade Média. Importante lembrar que essa é a época da expansão civilizatória, do racionalismo, do desenvolvimento da ciência e de um modo de organização do trabalho que vai desembocar na estrutura de classes capitalista.

Na novela de Nastagio, a primeira insubordinação feminina é punida com extrema violência. Segundo o discurso do cavaleiro perseguidor, a perseguição, para ele, é também uma pena, ele também sofre por ter de perseguir a mulher que amava. E essa perseguição ocorre em uma situação de extrema desonra para ela, que corre nua (enquanto ele está vestido) e que é assassinada com um estoque. A penetração da lâmina evoca o estupro. O coração da moça é retirado pelas costas (seu rosto não está mais visível, ela está assujeitada) e dado aos cães como comida. Esse homem, no contexto da pena, não tem qualquer interesse pelo sentimentos ou pela vontade dessa mulher enquanto ser humano. E, no entanto, durante a vida, o que ele queria era se casar com ela, dar-lhe um lugar de honra e prestígio. Moral da história: se uma mulher recusa o casamento proposto por um homem socialmente adequado, seu castigo é a dilapidação e desonra de seu corpo e de sua alma, pois sua vontade não tem valor.

Nastagio, por sua vez, não precisará recorrer a toda essa violência, o que é bom inclusive para ele, pois os homens também sofrem quando precisam corrigir suas mulheres — quantas vezes não se ouve esse argumento em narrativas sobre espancamentos, estupros e feminicídio? Para domesticar a moça, não será necessário violentá-la fisicamente: basta mostrar-lhe o que aconteceu com a outra, educá-la pelo exemplo. A estratégia dá certo: a moça entende rapidamente o que está em jogo e aceita o casamento (passa inclusive a amar Nastagio, diz Boccaccio). E assim as coisas retornam à “ordem”.

A caça à noiva e a caça às bruxas

Em termos de exemplo educativo, a caça à moça na novela de Boccaccio parece corresponder à caça às bruxas na Época Moderna, e por isso a narrativa literária emerge como uma síntese antecipatória da narrativa histórica. Como bem explica Silvia Federici em Calibã e a bruxa (tradução do Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017), depois de séculos de tortura e de perseguição de mulheres — especialmente camponesas e trabalhadoras que tentavam 1) preservar formas comunitárias de organização social e 2) furar o cerco de restrição do trabalho autônomo feminino — , chegou-se a um ponto em que a violência de Estado passou a não ser mais necessária. As mulheres se recolheram assustadas às suas casas e à lógica da divisão moral entre espoas e prostitutas. Com essa aniquilação coletiva das mulheres, qualquer iniciativa de subversão poderia ser rapidamente abafada sem se recorrer à violência: bastava evocar a história, coisa que elas mesmas já estavam fazendo por conta própria (e continuamos a fazer até hoje toda vez que evitamos roupas, lugares e comportamentos que podem nos levar a ser violentadas, e toda vez que nos perguntamos se somos de algum modo responsáveis pela violência que sofremos).

Assim como nas narrativas de Boccaccio e Botticelli, também na História o casamento heterossexual como fonte de formação da família nuclear e preservação da propriedade privada é marca e condição indispensável para a “civilidade”. O casamento confina a mulher ao trabalho não remunerado de reprodução social, esquema vigente até hoje e muito evidente para qualquer uma que seja encarregada do trabalho de limpeza e cuidado na própria casa ou na de outros. A tomada de consciência em relação isso tem feito as mulheres questionarem tal atribuição via recusa ao casamento tradicional ou a situações de submissão a ordenamentos patriarcais (familiares ou laborais), mostrando, portanto, uma falência do mecanismo de domesticação “pelo exemplo”. E temos então um retorno à violência extrema e explícita, como diagnostica Anthony Giddens em A transformação da intimidade (tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora da Unesp, 1993):

O controle sexual dos homens sobre as mulheres é muito mais que uma característica incidental da vida social moderna. À medida que esse controle começa a falhar, observamos mais claramente revelado o caráter compulsivo da sexualidade masculina — e este controle em declínio gera também um fluxo crescente da violência masculina sobre as mulheres. (p. 11)

Vale ressaltar aqui que essa “compulsão” da sexualidade masculina não é intrínseca e de ordem apenas psicológica, mas também e especialmente sociocultural: o homem explorado e expropriado pelas dinâmicas do capitalismo dirige sua raiva e frustração não para o sistema que o explora ou para seus agentes, mas para a mulher que decidiu não ser mais cúmplice dessa dinâmica exploratória (no âmbito do casal ou da sociedade).

Voltando à narrativa de Boccaccio: o contexto de “desordem” que conferia certa liberdade às moças quanto às decisões de casamento talvez fosse de uma desordem um pouco mais ampla. Para essa novela, Boccaccio escolhe uma ambientação histórica: a Ravena de meados do século XIII e a figura de Paolo Traversari como pai da moça por quem o personagem Nastagio se apaixona. O cavaleiro perseguidor, por sua vez, é Guido degli Anastasi, igualmente um sujeito histórico. Anastasi era de uma família rival e, assim como Nastagio, teria se apaixonado por uma Traversari.

Os Traversari eram guibelinos, facção política contrária ao exercício do poder terreno pelo papa, poder esse que deveria ser do imperador. Paolo era partidário de Frederico II, rei da Sicília e também Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. A corte de Frederico acolheu muitos poetas e trovadores de língua occitana, oriundos do sul da França, região na qual se estavam desenvolvendo ideologias mais, digamos, “progressistas”, e em que se via até mesmo uma certa mobilidade social. Essa região foi duramente atacada devido também à presença de heterodoxias, aquelas ordens religiosas que questionavam a riqueza da Igreja e que flertavam com princípios “libertários” e comunais. É dessa perseguição que os trovadores fogem quando se refugiam na Sicília e em outras partes da Península Itálica, inclusive em Ravena. De fato, os Traversari ficaram conhecidos por acolher muitos desses trovadores, do que é testemunho a poesia dedicada a integrantes dessa família.

(Para saber mais sobre esse trânsito de trovadores e sua marcante influência na literatura e na sociedade italiana, recomendo fortemente o livro de Marcella Lopes Guimarães: As vidas dos trovadores medievais: quem foram esses homens e mulheres que cantaram o amor.)

Em 1239, porém, Paolo Traversari volta-se contra Frederico II e é morto no ano seguinte. Dante Alighieri evoca esse episódio e a disputa entre as famílias Traversari e Anastasi no canto XIV do Purgatório, aludindo também aos valores do amor e da cortesia promovidos pela Ravena daquela época:

Federico Tignoso com seu bando
e os Anastagi e a casa Traversara,
(e uma e outra gente sucessão faltando)

Damas e paladins, afãs, ou rara
folga, inspirando amor e cortesia,
quando a gente inda má não se tornara
.

A novela de Boccaccio se passa, portanto, antes de Traversari virar as costas a Frederico e se tornar “a gente má” de que fala Dante. A narrativa evoca a altivez e a autonomia das mulheres em relação ao amor, valores típicos da poesia cortesã cantada pelos trovadores occitanos. Nesse contexto, portanto, a “liberdade” feminina está íntima e historicamente relacionada a uma ordem social — a uma desordem social — que precisa ser subjugada para se evitar o desenvolvimento de uma nascente e indesejável concepção de sociedade. De fato, no relato de Boccaccio fica muito clara a relação entre o domínio da mulher e a preservação do capital: a maior preocupação dos amigos de Nastagio não é tanto com o sofrer dele pelo amor não correspondido, e sim com a dilapidação do patrimônio.

Hoje, 25 de novembro, é o dia internacional pela eliminação da violência contra a mulher. Para aqueles que pensam ingenuamente que essa violência é algo localizado e que afeta “apenas” as mulheres, gostaria de encerrar o texto com estas palavras de Silvia Federici a respeito da relação entre aquela violência bárbara do passado (do passado?), representada pela perseguição na novela de Boccaccio, e as perseguições de hoje:

Assim como ocorre atualmente, ao reprimir as mulheres as classes dominantes reprimiam de forma ainda mais eficaz o proletariado como um todo. (p. 341)

[…] o principal fator de incentivo à caça às bruxas foi o fato de que as elites europeias precisavam erradicar todo um modo de existência que no final da Baixa Idade Média ameaçava seu poder político e econômico. (p. 368)

*Conheci a pintura de Botticelli no curso Ut pictura poesis: visualizando a literatura através da arte italiana, ministrado por Giulia Munhoz entre maio e junho de 2023 na UFPR.

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