Corpos indóceis, corpos de mau-gosto

Adriana Meis
2 min readDec 22, 2017

Dizer que o corpo é o campo onde se inscrevem as disputas de poder não é novidade, mas o clipe "Vai malandra", da Anitta, aparece como objeto empírico privilegiado para observar essas dinâmicas. No meio dessa celeuma, meu ponto de vista está alinhado com o texto de Roberta Gresta publicado no blog A Fala no lugar do falo"O funk da periferia: o feminismo das mana e o feminismo bwana". E digo mais: esquerda e feminismo que tutelam aqueles que pretendem representar estão dando um close muito, muito errado.

Essa discussão toda, que muitas vezes convoca o juízo de gosto para esconder preconceitos de outra ordem, me fez lembrar de um texto da Ludmila Brandão, professora UFMT(ressalva: não sei se a autora concordaria com a associação que eu faço aqui). Diz assim:

“Entre nós, real women das classes médias, um princípio é esconder os excessos. Isso elimina de vez tecidos colantes, cores e estampas espetaculares e transparências reveladoras, por exemplo. As consultoras de moda da vez estão sempre nos ‘lembrando’ dos erros que devemos evitar, estampando nas revistas os padrões desejados para corpos e seus invólucros. Um gosto que não se dobra, todavia, entre as classes populares, é o do corpo curvilíneo, das formas arredondadas, e do prazer em destacá-los porque aí residem promessas de prazer.”[1]

O texto se chama “Ensaio sobre a cópia na era da hiper-reprodutibilidade técnica” e trata da relação entre original e imitação na moda.

Acho que um pouco do que pega nesta questão da Anitta é isso: a ideia de que existe uma forma “autêntica” de ser uma mulher que deve ser respeitada (seja pela sociedade, seja pelo feminismo) e de que existe uma forma “autêntica” de representar o Brasil. O que está fora desses ideais seria cópia, seria a versão piorada vendida pelo camelô.

Vamos esperar pra ver quanto tempo leva para o biquini de fita isolante descer das lajes do morro para as praias descoladas e para que nós, mulheres decentes de classe média, emulemos essa inscrição das promessas de prazer que nossos corpos podem oferecer.

Até a moda, bastante conservadora nessas questões, já entendeu o espírito da coisa: uma competente e reconhecida jornalista desta área, que no início dos anos 2010 escreveu que saias curtas deveriam ser usadas com meia-calça grossa para não ficar vulgar (citei esse comentário em minha tese), hoje diz o seguinte: "Felizes das mulheres que brincam com suas bundas com sabor e prazer e com quem elas bem entendem. #vaimalandra".

[1] O texto está na coletânea Moda em ziguezague: interfaces e expansões, organizada por Cristiane Mesquita e Rosane Preciosa e publicada pela Estação das Letras e Cores.

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