Deixando as coisas em ordem antes de morrer

Adriana Meis
12 min readNov 13, 2023

Dez mil pés, anuncia a voz do comandante. O aviso de atar cinto se apaga. Saio da concentração com que controlo minha fobia de decolagem, retiro o computador da bolsa alocada embaixo da poltrona e começo a escrever este texto, que fala de morte. Não sei se é valoroso ou temerário tratar disso justamente durante uma viagem aérea, situação que por muito tempo (e até hoje, de certa forma) fez com que eu me sentisse, não importa se com razão ou não, na iminência de cair, de morrer, de não voltar.

Apesar do contexto, o que me impele ao texto é outra coisa. É um livrinho cuja resenha cruzou meu caminho internético faz alguns meses. Acabei comprando-o e lendo na última semana, durante os momentos de ócio de uma viagem a trabalho, e é por isso que falo dele de dentro de um avião. Chama-se O que deixamos para trás: a arte sueca do minimalismo e do desapego (Intrínseca, 2023, 128 p.), escrito por Margareta Magnusson, uma senhora de idade entre 80 e 100 anos, como ela mesma diz, e traduzido por Carolina Rodrigues. No título do original em inglês a proposta da autora é mais explícita: The gentle art of Swedish death cleaning. Sim, é um livro que fala sobre deixar tudo organizado antes de morrer. E o “gentle” não é em relação a quem vai, e sim a quem fica. Muito me interessou esse livro, tanto pela suposta parte prática da organização quanto pelas reflexões sobre a morte.

Desde que minha mãe faleceu, em 2015, venho pensando bastante na minha própria passagem; não com temor, muito menos com desejo, mas nas implicações de minhas decisões de vida para quando chegar o grande momento. Imagino que a questão prática da morte surja automaticamente, especialmente para mulheres, quando não se tem filhos (homens, mesmo que sem filhos, quase sempre terão quem cuide deles na velhice, e em 90% dos casos será uma mulher. A recíproca de gênero não é verdadeira).

Dois aspectos imediatos dessa questão normalmente não ocorrem a quem tem descendentes: quem vai “fechar a conta” da minha vida quando eu morrer? Para quem vou deixar minhas coisas? Lá pelo final do livro, a autora comenta sobre uma de suas filhas, na faixa dos 50 anos e sem filhos. A preocupação dela é: “para quem vou deixar meus livros?”, no sentido de encontrar alguém que efetivamente aprecie a biblioteca formada com amor durante uma vida. Parece que leu minha mente!

Vamos colocar duas coisas em suspenso neste texto: o fato de que ter filhos não significa automaticamente ter quem cuide de você, e o fato de que a morte pode acontecer muito antes de chegarmos à velhice.

A Margareta Magnusson coube fazer a arrumação final dos pais, do marido e de alguns amigos. Durante a escrita do livro, a autora já está na própria arrumação. Para ela, segundo indica o título de um dos capítulos, “A arrumação final não é melancólica”. Sua abordagem do tema é bem-humorada, terna, às vezes irônica. Existem conselhos práticos, mas o principal são reflexões, algumas com um olhar bastante acurado para as mudanças sociais que impactam esse que é só mais um dos inúmeros trabalhos de cuidado realizados de forma invisível majoritariamente por mulheres.

A essência do livro é: quando chegar à velhice (ela sugere os 65 anos), vá diminuindo suas posses e comece lentamente a arrumação para dar menos trabalho — e eventualmente menos sofrimento — a quem for responsável por cuidar das suas coisas após sua morte. Ela pensa assim mesmo tendo 5 filhos, ou seja, gente bastante para ajudar na “arrumação”. É uma postura duplamente chocante: tratar a morte como ela é, natural e inevitável, e assumir que o amor familiar não é algo incondicional. Ela diz, num pequeno prefácio:

“Você reuniu coisas maravilhosas durante a vida — coisas que sua família e seus amigos não podem estimar ou tomar conta. Permita-me ajudar seus entes queridos a se lembrarem de você com afeto, e não com chateação[grifos meus].

Mas como “arrumar as coisas” aos 65 se hoje é razoável esperar viver mais uns 30 anos além disso? Na verdade, a arrumação para a morte serve também para deixar a vida mais leve e menos trabalhosa nessas décadas que virão, especialmente se você ficará sozinha. Morar em um lugar menor e diminuir as posses que exigem limpeza e manutenção constantes são alguns exemplos.

Arrumações de mãe e de filha

Aos 76 anos, minha mãe tinha apenas os problemas de saúde comuns para a idade; morava sozinha e levava uma vida ativa e autônoma. Sua morte foi súbita, devido a um problema intestinal. Me comoveu encontrar entre seus documentos uma carteira de motorista recém-renovada. Não era alguém que pensasse que fosse morrer, e tampouco estava se “retirando”. Ainda assim, suas coisas estavam organizadíssimas, quase como se tivesse seguindo os passos do livro ainda não escrito por Margareta. Porém, tenho certeza de que ela ficaria extremamente ofendida se alguém lhe dissesse que deveria evitar que sua morte desse trabalho aos filhos. À alusão a esse trabalho ela provavelmente responderia com a mesma fórmula que usava quando nos jactávamos por tirar uma nota alta na escola: não fazem mais do que a obrigação.

Se as coisas dela estavam em ordem, era por pensar na vida, e não na morte. Fora sempre uma mulher organizada, apesar das coisas que se acumulam durante as décadas em uma casa onde cresceram duas crianças. Parte desse acúmulo foi dissolvida quando as “crianças” saíram de casa e ela se mudou para um apartamento, e depois deste para um apartamento menor no litoral. Quando ela morreu, o apartamento do litoral era bastante despojado e tinha a desorganização habitual de uma casa em uso. Já o apartamento da cidade, que foi ficando cada vez menos frequentado, continuava bem estruturado. Estavam guardadas ali as caixas com documentos, fotografias e lembranças da juventude dela e da nossa infância. Olhando para trás, penso que minha mãe via esse apartamento como o local onde ela passaria seus últimos anos de vida, quando já não tivesse condições de viver sozinha e precisasse/quisesse estar mais perto dos filhos, dos parentes e de melhores serviços de saúde. Era um local mais confortável e também o depositário de suas lembranças, aquelas mais queridas, preservadas da grande limpa feita na mudança da casa, e com as quais ela talvez desejasse passar seus últimos dias.

No apartamento do litoral não havia nada de muito complicado para resolver. Foi só o trabalho “braçal” de doar algumas coisas e jogar outras fora. O da cidade exigiu mais envolvimento, inclusive emocional. O que fazer com as lembranças que ela guardara? As fotos, as cartas? Aquilo era claramente importante para ela e talvez ela achasse importante que nós conhecêssemos ou guardássemos aqueles testemunhos de sua vida, a maior parte de antes do nosso nascimento. Digo isso porque as fotografias estavam em envelopes indicados com o tema ou com o núcleo familiar ou de amizade dos retratados. Indicações que, para ela, seriam desnecessárias.

Hoje olho com mais tranquilidade para esse espólio emocional e começo a ter planos para ele. No entanto, quando o vi pela primeira vez, tive três reações: a primeira de comoção por saber que algumas das memórias guardadas não tinham a mesma importância para a outra pessoa envolvida nelas; a segunda de arrependimento por não ter perguntando antes sobre aqueles documentos, para saber um pouco mais sobre aquelas pessoas, aquelas viagens e uma aparentemente frustrada aspiração literária; e a terceira de autoconsciência em relação à minha própria caixa de lembranças.

Àquela altura, em julho de 2015 (minha mãe morrera em 17 de junho), eu tinha uma caixa repleta de cartinhas de amigas, diários de adolescente, bilhetinhos de namorados. Um acervo que comprovava o quanto eu tinha sido apreciada, querida, eventualmente amada, e para o qual eu olhava também com um certo constrangimento pela puerilidade e futilidade dos desabafos de uma adolescente de classe média. Nas mãos de quem aquilo tudo cairia com a minha morte? Algumas pessoas talvez sentissem a mesma comoção que eu experimentara ao ver as lembranças maternas. Mas também vislumbrei a irritação ou a zombaria de uma pessoa estranha ou não muito próxima tendo que lidar com esse espólio emocional. Ou então a indiferença de quem não pensasse duas vezes antes de jogar fora aquilo que, para mim, era um tesouro.

Fiquei aterrorizada com essas possibilidades. Olhei tudo mais uma vez, revivi alguns momentos, me doí por outros e agradeci a oportunidade de ter tido aquelas amigas, aqueles namoradinhos, de ter recebido cartinhas e bilhetes, de ter vivido o privilégio de uma adolescência dedicada apenas ao estudo, que me permitia escrever “que tédio!” nas páginas do diário. Aos 41 anos, me despedi de quase tudo, cremando boa parte da documentação da minha vida sentimental na churrasqueira do salão de festas do condomínio. Guardei apenas uns poucos exemplares de cada categoria: uma carta de amiga, um bilhete de namorado, algumas páginas de diário. São meus amuletos de viagem no tempo caso eu deseje revisitar o passado, e não me exporão muito caso eu não tenha a oportunidade de me livrar deles antes da passagem.

De certa forma, isso foi libertador. O fato de conseguir desapegar dos testemunhos materiais da minha juventude me deu mais coragem para encarar minha escolha de morrer sem descendentes e de fazer planos derivados dessa condição. Se não haverá filhos para me visitar no jazigo da família no cemitério de Santa Felicidade, por que então ocupar aquele já superlotado espaço com um caixão e um corpo? Posso muito bem ser cremada. Só não decidi ainda o destino das cinzas. Em um vaso a ser colocado no jazigo, junto com uma plaquinha? Ou desapegar de qualquer tipo de inscrição material e pedir apenas que espalhem tudo no mar do Pico de Matinhos?

É por ter essas coisas em mente e por conseguir pensar nelas com relativa tranquilidade que me senti atraída pelo livro de Margareta Magnusson. Porém, trata-se do relato de uma mulher de classe média-alta (para os padrões brasileiros), que teve 5 filhos e depois netos e bisnetos que se hospedavam em sua casa, e que viveu em várias partes do mundo devido ao trabalho do marido em uma multinacional. Hoje, viúva, ela mora em um pequeno apartamento. É uma vida bastante diferente da minha; além disso, há o contexto sueco para as dicas de arrumação. Algumas coisas não me parecem familiares à realidade brasileira ou à realidade da minha classe social, como contratar uma casa de leilões para recolher e vender móveis e objetos de decoração. Por outro lado, há conselhos mais “universais”, a começar por sugestões de abordagem do assunto junto aos parentes, caso alguém queira seguir a filosofia do livro.

A arrumação como um trabalho de mulher e as dicas de Margareta

Como eu disse antes, a autora alinhava os conselhos e as dicas com observações sobre o papel das mulheres na arrumação final dos outros e delas mesmas. Ela lembra que, quando foi arrumar as coisas de sua mãe — que ficou bastante tempo doente antes de morrer — , encontrou bilhetes presos em roupas e objetos com instruções sobre o destino a ser dado a cada um deles:

“fiquei grata e vi nesse gesto um grande exemplo de como assumir a responsabilidade pelos próprios pertences a fim de facilitar a vida dos entes queridos após sua morte.”

A mãe de Margareta partiu antes que o marido, mas não foi ele quem fez a arrumação final dela. E foi a própria Margareta quem se encarregou da arrumação necessária para a vida de viúvo do pai. A autora não se apresenta como feminista e muito menos adota conceitos como trabalho de reprodução social, mas lá pela metade do livro aparece um box com o título “O trabalho de uma mulher”, de cujo conteúdo vale a pena citar alguns trechos:

“Suponho que a arrumação final seja um trabalho feminino por tradição. As mulheres ficam encarregadas da casa e tendem a viver mais tempo. Somos nós também que, com frequência, limpamos a bagunça de nossos filhos e maridos, então estamos acostumadas a realizar o serviço.
As mulheres da minha geração foram criadas para não serem um empecilho, para não tumultuar o ambiente com sua presença. Não é o caso dos homens, que ocupam o espaço que lhes é dado de maneira natural. Às vezes, minha filha diz que me preocupo tanto em não ser um estorvo que minha própria preocupação se torna uma chateação. Homens não pensam como eu, embora devessem. Eles também podem ser um aborrecimento[grifos meus].

Há também uma parte específica sobre a arrumação daqueles aposentos das casas que são ocupados pelos homens e por suas coisas, como garagens e galpões, as man caves (cavernas do homem). Margareta se diverte contando que, na Suécia, esses locais às vezes são chamados de mansdagis, ou seja, creche do homem.

[Divago aqui o quão interessante é o fato de a casa como um todo ser vista como alheia à vida do homem, a ponto de ele precisar de um escritório onde não seja incomodado, ou de um porão/sótão para assistir futebol com os amigos sem ter que se submeter às regras de organização da casa. Não é raro que homens e crianças tenham “zonas francas” para si nas casas, mas não há o mesmo para as mulheres.]

Quanto a dicas práticas, listo aqui algumas que me pareceram bastante úteis e factíveis, inclusive para arrumações “intermediárias”, e não finais:

  • No caso da arrumação final, não começar pelas cartas e fotografias; deixá-las por último, devido ao tempo e ao empenho emocional investidos nesse processo. Intuitivamente, foi o que fizemos com a arrumação das coisas de minha mãe.
  • Livrar-se de móveis e objetos estimados é mais fácil se, em vez de simplesmente doá-los de modo impessoal, você encontrar alguém que vá apreciá-los e que estará interessado em construir outras memórias com eles. Como nem sempre é fácil encontrar essas pessoas, quando alguém demonstra apreço por alguma peça sua talvez você já possa considerar a doação.
  • Não guarde coisas achando que outros vão querer ficar com elas.
  • Anexar papéis com fita adesiva, e não com grampos. Grampos não podem ir no triturador de papel… (dica que passarei a usar imediatamente).
  • Presentear amigos ou familiares com boas peças de enxoval de família que sobram ou que, na verdade, nunca serão usadas: louça, toalhas de mesa, guardanapos…
  • Sobre aquelas lembranças que você quer guardar, mas prefere que não sejam xeretadas pelos outros: em vez de queimar tudo como eu fiz, uma alternativa é colocá-las em uma caixa e deixar um aviso para que essa caixa seja descartada quando você morrer. Se vão obedecer, é outra história. Também gostei dessa dica e talvez a considere para as lembranças que vêm a partir de agora, mas não me arrependi de ter-me desfeito das lembranças de adolescência. Foi terapêutico. Margareta também se livrou de suas cartas e cartões, ainda que com bem mais idade do que eu.

A filosofia de vida e de morte apresentadas no livro têm um forte componente de classe e cultura. É mais fácil se desfazer de tudo quando você tem uma história, um lastro de origem construído e mantido também por outros de sua família. Muita gente não tem, e os objetos e lembranças constituem esse lastro. Além disso, talvez a única vantagem da morte seja não precisar mais se preocupar com nada. A arrumação final acaba sendo algo que podemos fazemos por nós, se isso fizer sentido para nós. Para mim, Adriana, a organização ajuda a viver melhor, a encontrar as coisas com facilidade, a resolver com mais rapidez os intermináveis meandros da burocracia brasileira — duplicada quando sua atuação é acadêmica, pois a toda hora você precisa apresentar diplomas, comprovantes, cópia disso, cópia daquilo. Ir limpando os excessos é algo (em processo) que faz sentido para mim hoje, talvez não faça mais depois. Oxalá eu possa viver até uns 100 anos, e então talvez as pessoas tenham sim que lidar com um monte de tralha. Será um problema de outros, não mais meu.

Sou gaivota por sobre o mar

Uma das partes mais lindas do livro é quando a autora fala sobre a viúva de um pescador, que seguia a tradição de jogar diariamente migalhas do café da manhã no local onde ficava ancorado o barco de seu marido. A gaivota que aparecesse para comer as migalhas seria o espírito do marido. No funeral do marido de Margareta, por sua vez, leram um poema de um poeta chamado Frans G. Bengtsson que termina dizendo:

“as gaivotas, enquanto voam, sabem como procurar lugares para descansar; mas o coração humano, preso à vida na terra, nunca experimentará a verdadeira paz enquanto estamos vivos”.

Ora, ora. Tem uma pessoa que, se estiver lendo este texto e se tiver chegado até aqui, saberá imediatamente no que estou pensando. Essa pessoa é depositária de um desejo: que, no meu funeral, sejam tocadas “Nuvem passageira”, de Hermes de Aquino, e “Gaivota”, do Blindagem:

Minhas penas tremendo
Me levem daqui
Faço parte do vento
Vou-me embora correndo
Minhas penas tremendo
Me levem daqui, me levem daqui
Faço parte do vento
Vou-me embora correndo

Nuvens e gaivotas: que bela ironia para o funeral de quem já teve medo de morrer durante um voo.

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