Adriana Meis
7 min readMay 26, 2019

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E tem sido um dos livros mais importantes do mundo

Resenha: O coração das trevas/Heart of the darkness (edição bilíngue)
Joseph Conrad
Tradução e notas: Fabio Cyrino
Editora Landmark, 2001, 176 p.

O coração das trevas, publicado originalmente em três capítulos numa revista literária em 1899, conta a história de um marinheiro inglês contratado por uma companhia mercantil para buscar um funcionário dissidente em um longínquo entreposto rio adentro, no interior de um país coberto por florestas e habitado por “selvagens”. Uma passagem sugere que a companhia seria francesa — “Eu parti em um vapor francês […]”, diz Marlow, o marinheiro (p. 20) –, mas a contracapa do livro e outras fontes explicitam que o continente é a África, que o país é o Congo, que a empresa é belga e que o próprio Conrad teria feito uma viagem similar a essa.

As relações do escritor com a história são próximas não apenas pela nota autobiográfica, mas pela escolha da narração em primeira pessoa — ou em duas “primeiras pessoas”. O tempo da narrativa é posterior à viagem ao Congo. O narrador está a bordo de um veleiro que, ancorado no Tâmisa, aguarda a maré vazante para que possa lançar-se ao mar. Estão com ele no convés o Diretor da companhia proprietária da embarcação, o Advogado, o Contador e Charlie Marlow. Após situar as pessoas no veleiro e o veleiro no rio, próximo à Londres que escurece com o cair da noite, o narrador conta que Marlow começou a contar uma história. E Marlow prossegue narrando no decorrer de quase todo o livro, com muito pouca intervenção dos demais companheiros de viagem.

Se formos entender estas operações de acordo com as projeções do enunciador no enunciado (FIORIN, 2001), a narração do enunciador-narrador-interlocutor caracterizaria uma debreagem enunciativa, e uma debreagem enunciva no momento em que ele fala de outros personagens em terceira pessoa. Aqui, o mecanismo é bem mais sofisticado: ocorre um desdobramento da embreagem enunciativa que convoca Marlow como narrador da maior parte da história, quando as marcas da embreagem enunciva — “ele disse”, ou as próprias aspas — se perdem no desenrolar do livro.

O primeiro destes desdobramentos de embreagem enunciva é bastante interessante para mostrar a intimidade entre os enunciador-narrador e o narrador-personagem. Até então, o primeiro descreve como o dia vai se esvaindo e sua descrição antecipa as trevas do título: “E por fim, em sua queda curvada e imperceptível, o sol mergulhou logo abaixo, e de um branco radiante transformou-se em um vermelho desbotado, sem raios e sem calor, como se estivesse pronto para desaparecer de repente, tocado de morte pela garra daquela escuridão que se estendia sobre a multidão dos homens” (p. 10). Logo depois, com Londres já imersa na escuridão, tais pensamentos soturnos parecem ser partilhados por Marlow, que intervém: “‘E mesmo assim’, disse Marlow de repente, ‘tem sido um dos lugares mais sombrios do mundo’” (p. 11).

A relação entre Conrad e Marlow está estabelecida na “Nota do Autor” que acompanha esta edição. A Nota foi elaborada por Conrad em 1917 e integrou uma publicação de 1923 — um ano antes de sua morte — que continha, além de O coração das trevas, os contos Juventude: uma narrativa(1898), e O fim da corrente(1902). Neste texto, Conrad informa que Marlow teria aparecido em Juventude e que, “objeto de especulações literárias bastante amigáveis” (p. 5), foi classificado como “filtro engenhoso”, “mero instrumento”, “demônio murmurante”, entre outros (p. 6).

Ora, estas classificações parecem fazer referência ao papel ocupado por Marlow em O coração das trevas: uma voz que poderia eximir Conrad de narrar os horrores praticados pelos belgas no Congo, deixando a tarefa a cargo de seu delegado. Seria uma forma de o personagem absolver o autor de uma possível responsabilidade, ainda que por omissão, sobre o que o escritor Milton Hatoum (2016) definiu como um dos maiores genocídios da era moderna?

De fato, sua biografia diz que foi a “[…] única viagem da qual se arrependeu amargamente” (CONRAD, 1971, p. 207). O arrependimento, porém, parece ter mais a ver com ele do que com uma possível empatia pelos africanos explorados pela Sociedade Anônima Belga, para quem trabalhava: “O trabalho, os companheiros, o clima, a malária fizeram-no largar tudo e voltar para Londres, apesar do grande prejuízo econômico que tal decisão lhe acarretaria” (CONRAD, 1971, p. 207).

Apesar disso, existem marcas de uma atitude crítica frente aos episódios narrados, que o próprio Conrad assume, na Nota, serem fruto de uma vivência pessoal. Uma delas é sua justificativa de que o único despojo trazido por ele das regiões centrais da África são suas histórias, ao contrário do que fazem outros “[…] homens curiosos que se lançam a toda sorte de lugares (onde não se possui qualquer vínculo) e saem de lá com todo tipo de espólio” (p. 6).

Percebe-se outra postura crítica no monólogo de Marlow quando, ao olhar para a sombria Londres, ele experimenta imaginar como teria sido a invasão da Inglaterra pelos romanos, a dificuldade com a terra desconhecida, as possíveis recompensas ao retornarem, a fascinação pela abominação — aspectos que podem ser associados às expedições realizadas posteriormente pela própria Inglaterra. Marlow, no entanto, estabelece uma diferença entre o colonizador (eles, herdeiros da tradição marítima inglesa?) e o conquistador: “Tudo era apenas roubo com violência, agravado pelos assassinatos em larga escala, e homens avançando às cegas — como é bem apropriado àqueles que enfrentam a escuridão. A conquista da terra, que na maioria das vezes significa toma-la [sic] daqueles que possuem um aspecto diferente ou narizes levemente mais achatados que os nossos, não é algo bonito quando você o olha mais de perto. O que nos redime é a ideia em si. Uma ideia que existe por detrás disso — não um pretenso sentimento, mas sim uma ideia. E uma crença altruísta na ideia — algo que você possa elevar, se curvar diante e oferecer sacrifícios para…” (p. 13, grifos meus).

Este trecho ilustra o que Marlow enfrentará depois e o papel dos conquistadores belgas neste processo. Mas há uma ressalva: as atrocidades são redimidas desde que legitimadas por uma ideia. É a ideia de levar a civilização aos selvagens, de converter os pagãos, de integrar os povos primitivos na modernidade. Como disse Hatoum, citando o fotógrafo Roger Casement (que viajou com Conrad), “o trabalho dos civilizadores é um crime organizado” (2016, p. C8). Para esse trabalho, é necessário contar com pessoas especiais, como o senhor Kurtz, que Marlow deve ir buscar no distante entreposto. Kurtz teria conseguido obter muito sucesso na sua missão civilizatória junto aos selvagens, o que passa a ameaçar os projetos da sociedade comercial para a qual ambos trabalham.

Ainda que tenha um aspecto crítico, o papel de Marlow, assim como parece ter sido o do marinheiro Joseph Conrad, não vai além da denúncia. Charlie Marlow relata a exploração, a tortura e os assassinatos praticados pelos europeus nas terras do Congo e o leitor é impactado por essas descrições; o personagem, no entanto, não faz nada para mudar a situação. Neste ponto, lembro de a A pele, de Curzio Malaparte (1971). Malaparte é narrador e personagem da história que conta o desembarque dos americanos em Nápoles na Segunda Guerra. Os próprios americanos acabam explorando quem deveriam defender. Malaparte, como oficial de ligação entre os italianos e os Aliados, descreve isso de forma relativamente distanciada. Ele não participa dos episódios de exploração, mas também não impede seus companheiros de cometê-los. Apenas desnaturaliza seus procedimentos, procurando despertar neles certa empatia. Curiosamente, Curzio é um pseudônimo adotado pelo escritor de origem ítalo-germânica cujo nome é Kurt: Kurt Erich Suckert.

Kurtz, o de Conrad, é um homem temido e adorado, conforme o leitor vai descobrindo no caminho rio adentro. Marlow está fascinado e anseia pela oportunidade de conversar com ele ou, ao menos, de ouvi-lo falar. Em certo momento, alguém diz que Kurtz tem o perfil de um líder político extremista, que não conseguia escrever nada, mas que tinha o poder de eletrizar multidões. “Um líder de qual partido?”, pergunta Marlow. “De qualquer um”, informa seu interlocutor.

Considerando que O coração das trevas foi escrito no final do século XIX, estaria Conrad pressentindo os regimes totalitários que dominariam parte da Europa nas décadas seguintes e, também, revelando as condições para a emergência destes regimes? Seria por isso que a adaptação do livro para o cinema, com a história ambientada na guerra do Vietnã — Apocalypse now, de Francis Ford Coppola (1979) –, foi tão elogiada como crítica à política bélica estadunidense? O coração das trevas atualizaria sua relevância segundo novas formas de conquista de territórios da contemporaneidade, justificadas — “a ideia por detrás disso” — por uma guerra ao terror?

Conrad nos conduz até o horror com uma grande habilidade e um especial domínio de metáforas e comparações que opõem claridade e escuridão, abertura e fechamento, leveza e peso, liberdade e opressão, sanidade e loucura. Outras escolhas figurativas também são igualmente significativas: a violência sofrida pelos africanos decorre da exploração do marfim. O primeiro contato de Marlow com a lógica e a prática desta violência acontece em sua chegada ao principal entreposto da costa do Congo, comandado por um sujeito especialmente cruel, trajado de forma muito elegante, e que é o contador da companhia. Se o leitor lembrar do início da história — ou do início desta resenha –, um dos personagens no veleiro atracado no estuário do Tâmisa é o Contador, que está montando estruturas arquitetônicas com as peças de seu dominó em marfim.

Talvez sejam estes elementos formais a justificar a inclusão de Joseph Conrad entre os cânones. Talvez possamos considerar este seu despojo — a história — como prêmio pelos sofrimentos vividos. De acordo com a biografia, foi depois de sua viagem ao Congo que teria desabrochado como escritor em toda plenitude (CONRAD, 1971). O leitor consegue apreender isso mesmo em uma edição bastante sofrível como a da Landmark, que apresenta problemas de tradução e revisão. De fato, não há crédito a revisor ou revisora na ficha catalográfica. Ao menos a edição possui notas explicativas e é bilíngue — o texto original já caiu em domínio público –, o que permite o cotejamento das versões e facilita um acesso menos filtrado aos recursos discursivos operados por Conrad para nos conduzir às trevas da condição humana.

Referências

CONRAD. Os imortais da literatura universal. São Paulo: Abril Cultural, 1971. Vol. I.

FIROIN, J. L. Elementos de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2000.

HATOUM, M. O Corpo, o Congo e um irlandês. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 26 fev. 2016. Caderno 2, p. C8.

MALAPARTE, C. A pele. São Paulo: Abril Cultural, 1971.

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