Ensino de língua e teoria linguística também ensinam sobre papéis e concepções de gênero

Adriana Meis
5 min readJan 18, 2021

Exemplos e diálogos usados em materiais didáticos de ensino de língua estrangeira e de língua materna, e mesmo textos de teoria linguística, acabam reforçando a desigualdade social de gênero.

Duas telas do curso de alemão no Duolingo mostram pontuações para frases sobre ser mulher e sobre ser homem.
Telas do curso de alemão no Duolingo mostram duas frases com a mesma estrutura e mesma informação: "eu sou […]". A frase sobre ser mulher termina com ponto final, a frase sobre ser homem com um ponto de exclamação. Se a diferença produz significação, quais os efeitos de sentido dessa diferença de pontuação relacionada às asserções sobre identidade de gênero?

A língua tem um efeito importante na demarcação dos papéis e no reconhecimento dos direitos de cada gênero em uma cultura. Para pensar sobre isso não basta considerar a gramática normativa ou a morfologia: é preciso observar também os usos.

Não é necessário falar outra vez da reiteração de papéis temáticos derrogatórios da mulher e do feminino no uso das línguas (da portuguesa, por exemplo). Mas quando essa reiteração acontece nos textos da metacompetência linguística — ou seja, nos materiais para ensino de línguas ou de teoria da língua — ela é ainda mais grave.

Tenho observado isso nos materiais de língua italiana, não porque esta seja uma língua de uso mais sexista ou menos sexista do que outras, e sim porque quando frequentei cursos de outras línguas ainda não tinha subsídios (a semiótica, os estudos de gênero, a linguística) para tal reflexão.

Para ensinar a língua esses materiais descrevem situações, pessoas, simulam diálogos. O que se nota nos conteúdos desses materiais (tanto aqueles produzidos por italianos quanto por brasileiros) é uma reiteração de situações como:

- tarefas relativas à casa e aos filhos sendo realizadas apenas por mulheres;

- diálogos entre mulheres comentando sobre relacionamento, homens ou falando mal de outras mulheres, e de homens falando de esportes, de trabalho;

- profissões de cuidado mais atribuídas a mulheres, e aquelas relacionadas às áreas “duras” atribuídas aos homens;

- ausência de pessoas homossexuais.

Pode-se argumentar que as editoras de materiais didáticos precisam vender seus sistemas de ensino a países de diferentes culturas, então elas nivelam as relações de gênero a uma média que não cause rejeição ou estranhamento em culturas mais, digamos, sexistas. Tanto pior, pois esses materiais são autoridades discursivas, e acabam reiterando globalmente as distorções dos papéis temáticos e das relações.

Observei o mesmo problema em alguns materiais didáticos de língua portuguesa de um certo sistema de ensino que tive oportunidade de revisar. Os exemplos adotados pelo autor para tratar de um determinado tópico da gramática eram negativos para o gênero semântico feminino (pronomes, adjetivos, nomes) e positivos para o masculino.

Isso não significa que o autor foi deliberadamente sexista; provavelmente ele não monitorou as próprias concepções assimétricas de gênero, fruto de sua inserção cultural, e deixou que se manifestassem na didática. No entanto, um autor ou autora desse tipo de material, bem como professores e professoras, precisam sim acionar esse monitoramento, pois sua responsabilidade na educação sociopolítica — e não apenas na de língua — é imensa.

Agora, como “acionar” esse monitoramento se os próprios materiais de formação de educadoras/es reforçam as assimetrias?

Lembro rapidamente de dois casos. O primeiro é um texto muito, muito bacana do linguista Carlos Franchi em que ele reflete sobre o ensino de gramática. Em determinado momento, para mostrar que o domínio das normas não significa um domínio da produção textual ou do uso criativo da língua, ele compara duas redações. Coincidentemente, uma de um menino, outra de uma menina.

A da menina é toda correta gramaticalmente, mas considerada “pobre” criativamente; a do menino tem “erros” gramaticais, mas é viva e interessante. Nem vou entrar no mérito de abordar as duas medidas usadas na educação de meninas e meninos no que se refere à obediência às normas (escolares ou sociais), e que fazem com que meninas sejam mais tolhidas e “enquadradas”.

O ponto é que, para se referir ao menino e à sua produção, o autor usa as palavras no grau normal — "o aluno da redação (1)". Já a menina é a "aluninha da redação (2)" e sua redação tem “oraçõezinhas”. Essa distinção de uso manifesta um juízo de valor não mais sobre as redações, e sim sobre as crianças que as escreveram — e o que as diferencia é o gênero.

O outro exemplo é um texto do Rodolfo Ilari de 1981 sobre a interpretação de sentenças ambíguas. A sentença usada pelo autor como caso de estudo é “Pedro bateu em sua mulher e José fez o mesmo” (José bateu na própria mulher ou na mulher de Pedro?). Poderia ser “Pedro respeita sua mulher e José faz o mesmo”, ou, se fosse preciso usar o verbo “bater” no passado, “Pedro bateu em seu patrão e José fez o mesmo”.

A estrutura se prestaria à análise do fenômeno semântico e ainda evitaria a reiteração de concepções sobre violência de gênero e a sua decorrente normalização na nossa cultura, violência até hoje disseminada e chancelada no Brasil (vide o aumento dos casos de violência doméstica e de feminicídio durante o isolamento em 2020).

Mas o pior talvez seja o fato de que esse exemplo continue sendo citado em artigos e usado acriticamente e descontextualizadamente em sala de aula, mesmo quando todas essas questões sobre o poder da língua na cultura já estão bem conhecidas e debatidas.

Lembrei de tudo isso ao fazer umas lições de alemão no Duolingo, que mostro nas imagens abaixo.

As duas frases têm a mesma estrutura — "Ich bin eine Frau." e "Ich bin ein Mann!" — , e suponho que sirvam para ensinar um pouco de vocabulário e os artigos indefinidos “ein” e “eine”. Mas a sentença “eu sou um homem” vem acompanhada de um ponto de exclamação, enquanto a sentença “eu sou uma mulher”, de um ponto final.

Os usos da pontuação sugerem que ser mulher é uma constatação simples, e ser um homem é algum tipo de declaração de princípios, ou uma condição que precisa ser reforçada, demarcada. A diferença produz sentido, dizem-nos a linguística e a semiótica. Nesse caso, a diferença também é relacionada a gênero.

Em resumo, a língua é tudo, menos neutra. Todo o aparato do ensino de línguas ensina muito mais do que língua.

Como citar este artigo:

BAGGIO, Adriana Tulio. Ensino de língua e teoria linguística também ensinam sobre papéis e concepções de gênero. Adriana Meis, 18 jan. 2021. Disponível em: [o link do post]. Acesso em: [a data em que o artigo for lido].

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