“Eu não nasci no corpo errado, mas na sociedade errada”

Uma resenha mesclada de memórias acadêmicas

Adriana Meis
9 min readNov 6, 2021
LANZ, Letícia. A construção de mim mesma: uma história de transição de gênero. Posfácio de Angela Autran Dourado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2021.

A categoria gênero me interessa academicamente desde o mestrado. Não sei dizer exatamente como surgiu esse interesse. O objeto da pesquisa já estava definido: seria a publicidade, minha formação e minha profissão até ali. Mas investigar o quê sobre a publicidade? “A temática homossexual masculina”, propus à minha orientadora, e ela topou. Acho que me incomodavam as piadas e chacotas que eu via ou intuía nos anúncios, e quis entender como isso funcionava.

Fiz o mestrado entre 2002 e 2003, em João Pessoa, na pós-graduação em Letras da UFPB. A internet ainda não era esse repositório de livros e artigos que conhecemos hoje e, à época, não me ocorreu buscar orientação adicional em algum outro departamento. Para me acercar do tema, contei com a biblioteca da universidade. Construí meu conhecimento sobre orientação sexual por meio dos livros que encontrei por lá, mas fora de um enquadramento teórico de gênero. O emblemático Problemas de gênero, de Judith Butler, só chegaria ao Brasil em 2003, e não tive contato com outras eventuais publicações sobre o tema.

Aprendi muito com esse trabalho, que foi feito de forma entusiasmada e honesta. Lido hoje, revela muitos problemas no tratamento do assunto. Mas deve ter sido um dos primeiros a tratar da representação da homossexualidade na publicidade, com arcabouço teórico-metodológico para apontar as abordagens preconceituosas e desrespeitosas que passavam por humor. Um artigo derivado dessa pesquisa é minha produção acadêmica mais citada, deixando a comer poeira — para minha decepção — trabalhos muito mais sólidos e teoricamente consistentes que escrevi depois.

A principal lacuna dessa minha pesquisa de mestrado é não distinguir, na análise, as categorias que compõem a matriz heterossexual de entendimento da relação sexo/gênero — algo que só chegou para mim anos depois. É esse desentendimento que faz o senso comum confundir expressão de gênero com orientação sexual.

Aconteceu comigo: já de volta a Curitiba, em 2004 ou 2005, recebi em uma de minhas turmas do curso de comunicação social uma moça que, coincidentemente, tinha sido minha aluna em João Pessoa. Ela então me confessou que os alunos de lá achavam que eu era lésbica, porque era muito brava e muito exigente em sala de aula. E, ao falar isso, ela receava ter me ofendido, mas não pelo machismo pressuposto na crítica (que ela evidentemente não identificou), e sim por pensar de mim algo que, no seu sistema de valores, era algo negativo.

Há várias questões nessa pressuposição: as expectativas que se tem a respeito do que é feminino ou não em termos de comportamento, a recusa da assertividade ou da firmeza por parte de mulheres, e por aí vai. E há também a solução encontrada pela sociedade para classificar aquilo que não “bate” com essas expectativas: jogar as manifestações que divergem do template de gênero na caixinha da homossexualidade. Essa é uma caixinha bem menos prestigiosa do que a da heterossexualidade cisgênera, mas ainda assim traz certo conforto às pessoas. Pelo menos elas “entendem”.

O problema é quando alguém recusa essas opções de caixinhas.

Me ocorre o exemplo do personagem de Wagner Moura no filme Praia do Futuro (2014), um homossexual de expressão máscula e viril. Não pode: gays são afeminados.

"Se há um homem gay viril, como farei para separar os gays dos heteros? Como farei para que eu, orgulhosamente hetero, não seja confundido — a coisa de que mais tenho medo nesse mundo — com um homossexual?"

É também o caso da psicanalista, pensadora poeta Letícia Lanz, mulher transgênera que recusa certas partes do script da performance compulsória do feminino. Lanz não abre mão de manter, mesmo depois da transição, papéis sociais atribuídos à figura masculina dentro uma matriz heterossexual, papéis que ela assumiu e que inicialmente cultivou na identidade que lhe foi atribuída ao nascimento, a de Geraldo Eustáquio.

Letícia Lanz com Larte no evento online de lançamento do livro, em 28 de outubro de 2021.

Identidades e expressões de gênero e sexualidade que se recusam a ser enquadradas nas caixas disponibilizadas pelo senso comum desestabilizam fortemente as pessoas — e aqui tô falando das pessoas que estão (ao menos aparentemente) “encaixadas”, e que se incomodam com o “desencaixe” das outras.

Os enquadramentos normativos de gênero e sexualidade são extremamente opressivos, efetivamente impossíveis de ser plenamente alcançados, e por isso duplamente perversos: porque fazem as pessoas perderem tempo e energia enormes na tentativa constante de se manterem “na linha”, e porque servem para desqualificar quem não tem ou não quer ter sucesso nesses enquadramentos.

E, no entanto, em vez de abandonar esses leitos de Procusto, trabalhamos incansavelmente para mantê-los positivos e operantes.

Logo antes eu descrevi Letícia Lanz como “mulher transgênera”, porque precisava recorrer à matriz cultural, ao conhecimento compartilhado, para poder demonstrar o meu ponto. Essa descrição, no entanto, além de equivocada, é por minha conta.

Letícia não tem o menor interesse em se inscrever em nenhuma matriz cultural de inteligibilidade de gênero, como ela mesma diz no livro. No entanto, se alguém quiser fazer essa inscrição,

“[…] pode dizer que eu sou uma pessoa transgênera, com a identidade mais próxima de uma travesti ou transexual e orientação sexual lésbica. Meu aviso aos navegantes é que não me sinto nem um pouco responsável por eventuais contradições e desconfortos conceituais […]” (p. 47).

Letícia não alivia para o leitor ansioso por terminologias classificatórias. Essa concessão à inscrição, à descrição, ao enquadramento, é feita já perto da metade do livro. Antes disso, é preciso que o leitor entenda que ela é uma pessoa, que ela é quem ela é, e que, se houver necessidade de um tremo com o prefixo “trans” para indicar a sua transição de gênero, que seja o de “transgente”.

Mas quais seriam as contradições, os desconfortos conceituais aos quais a autora se refere?

Letícia se inscreve como pessoa transgênera, e não como mulher transgênera, mesmo que, no decorrer da narrativa, ela conte como foi sua transição da identidade masculina que lhe foi atribuída ao nascimento, devido ao fato de ter nascido com um pênis, a uma identidade feminina. Além disso, a inscrição lésbica — classificação para a orientação sexual de mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com mulheres — , pressupõe a identidade “mulher”.

Nesse percurso, nessa concessão à inscrição e nesse aviso quanto às contradições e desconfortos conceituais, Letícia conversa não apenas com quem desconhece ou se recusa a aceitar a diversidade de gênero e de sexualidade como intrínseca à humanidade, mas também com quem, no outro extremo, recorre e se apega às classificações para situar identidades transgêneras e transexuais em uma matriz binária, por motivos pessoais ou políticos.

Nossa identidade de gênero depende fortemente do reconhecimento externo a respeito dessa identidade. Isso exige uma performance constante e o aproveitamento de todas as oportunidades de adesão à matriz de inteligibilidade cultural do gênero com o qual nos identificamos. Para ser considerada mulher, não basta que eu me identifique como tal e que me sinta como tal. Não basta nem mesmo que a minha certidão de nascimento diga que meu sexo é feminino. Para ser reconhecida como mulher, é preciso que os outros também me atribuam essa etiqueta e que chancelem a minha performance “feminina” dentro de certos parâmetros — por exemplo, não ser brava e nem exigente.

Diante dessa necessidade, uma mulher transgênera buscará aderir a tudo que é considerado feminino pela comunidade em que vive, desde a requisição da identidade “mulher” até as práticas de expressão de uma “feminilidade canônica”. E é a isso que Letícia se recusa, ao menos parcialmente.

Ela conta sobre seu fascínio pelas roupas e acessórios comumente usados por mulheres, por perucas e maquiagem; conta sobre o tratamento hormonal para que lhe crescessem seios; mas não diz nada sobre outras práticas de modificação do seu corpo nascido “macho”. Também não abriu mão de seu papel de marido, de pai e de avô, e de ser chamada pelos termos declinados no masculino quando no exercício desses papéis.

Pelo que a autora comenta, isso talvez incomode certos segmentos da comunidade transgênera e transexual. É por isso que Letícia milita não pelo direito de assumir uma identidade feminina e de ser reconhecida como mulher, mas pelo direito de não precisar se encaixar em nenhuma inscrição de gênero imposta. “Eu não nasci no corpo errado, mas na sociedade errada” (p. 23), ela diz.

A construção de mim mesma é uma narrativa na qual a metalinguagem dos estudos de gênero aparece muito suavemente. Tem a grande relevância de aliar a abordagem fundamentada cientificamente ao fato de ser o relato de uma pessoa que discute intelectualmente as vivências e os efeitos do dispositivo de gênero na própria pele.

É também uma escrita que conduz o leitor pela empatia. Que fala de dores e sentimentos compartilhados pela condição humana. Que fala de rejeição e de aceitação, de ser obrigada a fechar portas e de encontrar a oportunidade de abrir outras. De cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cim. E é, portanto, uma história de vida de interesse geral, e não só para quem estuda “essas coisas”.

É muito difícil se desvencilhar das constrições dos enquadramentos de gênero, talvez a mais forte e perene das normatizações sociais. Mas se há alguém genuinamente interessado em se abrir a essa discussão (ao menos para entender o outro, se não quiser se confrontar com si mesmo) e está cansado de ser manipulado por mamadeiras de piroca e afins, o livro de Letícia é uma excelente opção de acercamento.

Quem sabe um presente nesse Natal que se aproxima?

Conheci a Letícia em 2012. Estava no segundo ano do doutorado em comunicação e semiótica, cursado na PUC-SP. Depois de um intervalo de oito anos desde a defesa de mestrado, em 2011 eu retomara a formação de pesquisadora acadêmica, retomando também a articulação entre publicidade e gênero. Agora eu investigava os papéis sociais femininos propostos pelos anúncios publicitários a depender da roupa usada pelas mulheres nesses anúncios. Me interessava especialmente observar os papéis das mulheres de saia, pois eu partia da hipótese de uma restrição (ou constrição) ao uso dessa peça, hipótese originada de observação empírica e de fundamentação teórica. A saia é símbolo do feminino, papel que o vestido não ocupa, e isso tem consequências políticas importantes.

Diferentemente do que acontecera no mestrado, dessa vez eu busquei o apoio dos estudos de gênero para embasar a pesquisa. O primeiro ano do doutorado eu passara em São Paulo, para cursar as disciplinas. No segundo, de volta a Curitiba, procurei a professora Miriam Adelman, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPR, e ela me aceitou como aluna ouvinte em seu curso sobre feminismo e estudos de gênero. Participar desse curso foi fundamental para minha investigação e para minha vida.

Letícia fazia mestrado em Sociologia e também estava no curso. Sua pesquisa de mestrado originou o livro O corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a transgressão e a conformidade com as normas de gênero. Uma introdução aos estudos transgêneros (Editora Transgente, 2015, 456 p.).

Acho que essa é a primeira obra brasileira sobre estudos transgêneros e foi uma bibliografia inestimável nas disciplinas sobre estudos de gênero que ministrei na graduação em Comunicação Social da UFPR, em 2015 e 2016, e na pós-graduação em Tecnologia e Sociedade na UTFPR, em 2017 e 2018 (no âmbito do estágio pós-doutoral que realizei nessa instituição). No ano seguinte, as reflexões de O corpo da roupa me ajudaram a desenvolver um modelo para análise semiótica da categoria gênero, que publiquei em artigo em 2020.

Esse artigo e seu modelo são fruto de anos de reflexão e de amadurecimento, e pretende ser uma resposta às inúmeras distorções frequentemente perpetradas por quem, como eu, se aventura em analisar a categoria gênero sem ter a formação principal nessa epistemologia. No modelo, estruturado sobre a base do quadrado semiótico de Greimas e Rastier, proponho que mesmo identidades que se entendem ou são entendidas como cisgêneras manifestam, na verdade, uma bigeneridade — considerando a dicotomia masculino-feminino em operação na nossa cultura.

É muito difícil, eu diria impossível, que mesmo a mais monitorada das pessoas consiga performar exclusivamente apenas uma das categorias de gênero, a vida toda. E se isso é impossível, por que então se importar tanto com a classificação? A resposta é longa e complexa, mas sua raiz está no sistema de opressão e privilégios que nos governa. Pessoas que recusam isso são a falha na Matrix e esfregam na nossa cara o caráter discursivo e artificial do gênero ao qual tantos de nós se apendem desesperadamente.

Lá no início eu comentava sobre um trecho de A construção de mim mesma em que Letícia antecipa eventuais acusações, dirigidas a ela, de contradição conceitual, já que seu estar no mundo desafia categorizações tanto de modelos de cisgeneridade quanto de modelos de transgeneridade. Mas o contraditório se dá em função de um conjunto de crenças, que é aprendido, e não natural. Sem essas crenças, não há contradição, e isso é lindamente ilustrado por um episódio ao final do livro.

Letícia está com seu neto no supermercado. O menino a chama de “vovô”, no masculino, para pedir um chocolate, ao que a funcionária que está no caixa corrige: “não é vovô, é vovó”. O netinho, por sua vez, esclareceu: “é vovô, sim! A vovó ficou lá em casa” (p. 93).

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