Foi por medo de avião?

Adriana Meis
7 min readFeb 23, 2023
Quem nunca ri amarelo de suas postagens antigas no Facebook, que atire o primeiro cartão de embarque.

Desde que entramos na segunda metade de fevereiro, venho esperando o Facebook sugerir a “lembrança” dos 10 anos da minha primeira viagem à Itália, que foi também a primeira intercontinental. Lembrava de ter chegado em Roma bem cedo e de ter feito uma foto bem ruim já na área doméstica do aeroporto Fiumicino, enquanto aguardava a chamada para Bolonha. Lembro também de me divertir com um passageiro furioso gritando “porca miseria” no portão de embarque de um voo atrasado. No sábado passado, dia 18, dito e feito: a rede social me recordou a foto do amanhecer. De lá para cá, todo dia uma nova foto de lembrança, a maior parte com telhados nevados em Bolonha. Eu estava deslumbrada com a neve, que até então só tinha visto bem de longe, ao atravessar a Cordilheira dos Andes de ônibus no verão.

Da minha janela no Hotel Pedrini.

Essa minha primeira viagem aérea de longa distância aconteceu quando eu tinha 38 anos. Tarde, no círculo social que eu passei a frequentar a partir do segundo grau. Essa fase eu estudei no CEFET, com colegas que viajavam para os Estados Unidos em seus aniversários de 15 anos. A faculdade eu fiz na UFPR. Lá também muitos de meus colegas já tinham viajado ou viajariam para o exterior naqueles anos e nos imediatamente seguintes.

Era diferente no círculo da minha infância. Para nós, oriundas da classe média baixa de Santa Felicidade e alunas das escolas estaduais do bairro, viagens aéreas internacionais eram inacessíveis. No CEFET e na UFPR os processos seletivos acabavam privilegiando (mais do que hoje, felizmente) estudantes de escolas particulares, que preparavam melhor para a disputa de vagas. Meus colegas não deixavam de vir da classe média, mas era um médio um pouco mais médio do que o meu.

A partir do segundo grau, portanto, eu comecei a ter contato com pessoas para quem as viagens aéreas estavam menos distantes no horizonte. Isso no início dos anos 1990. Nessa década, viajar de avião foi ficando mais fácil mesmo para os remediados. Quem tinha um emprego não muito ruim e conseguia poupar algum dinheiro já podia pensar em voar. Nos anos 2000, especialmente com o decorrer do governo Lula, essa possibilidade se estendeu até mesmo aos pobres.

Minha viagem de 2013 aconteceu nesse apogeu econômico brasileiro. Como outras pessoas de classe média com emprego (os meus eram na publicidade e na docência), talvez eu tivesse conseguido fazer a viagem muito antes, ao menos em termos de dinheiro. O problema é que, ao mesmo tempo em que a situação econômica (minha e do país) melhorava, eu desenvolvia um medo paralisante de entrar em um avião. Nos primeiros anos do século XXI, quando o Brasil todo começava a voar, eu só conseguia viajar por terra.

Antes de sentir medo, eu já havia voado. Fotos provam que com 2 anos eu fui de avião para Brasília. Na segunda metade dos anos 1990, fiz algumas viagens aéreas a trabalho. Mas, no ano 2000, quando decidi me mudar para João Pessoa, a fobia veio com tudo. Fui para lá de carro e, três anos depois, voltei pelo mesmo meio. Nesse intervalo, fiz o trajeto também de ônibus e três vezes de avião. Foram três — ou melhor seis, porque ida e volta — sessões de tortura. Até quase 2010 foi assim: a lazer, viagens rodoviárias (e por mar). A trabalho, episódios de terror em viagens aéreas incontornáveis.

O pior é que nem sentir medo em paz a gente pode. A fobia aérea é tratada com chacota. A primeira coisa que se diz para alguém que tem medo de voar é que se morre muito mais em estradas do que em acidentes aéreos. É como se você fosse uma pessoa estúpida e obtusa, incapaz de regular o comportamento de acordo com a racionalidade dada pela estatística. Muitas vezes minha fobia foi minimizada por pessoas com medos que eu poderia tachar de ridículos. Por exemplo, pessoas que, por medo de água, não entram no mar além do nível em que as ondas cobrem os tornozelos. Pessoas que têm medo de aguardar sozinhas, em um bar ou restaurante, a companhia que ainda não chegou. Pessoas que, em algum momento da vida, não conseguiram nem ultrapassar o umbral da porta de casa. Pessoas com medo de estacionar o carro nos pisos mais inferiores da garagem do Shopping Curitiba.

Para tentar lidar com a fobia, eu comprei livros sobre acidentes aéreos, pensei em fazer um curso de pilotagem e colecionei histórias de fóbicos famosos e incontestavelmente inteligentes: Dominguinhos e Niemeyer são os que me ocorrem agora. Também fiz terapia cognitivo-comportamental com uma profissional especializada em fobia de dirigir (parecida com a aérea, e motivo ainda maior de chacota) e sessões com um simulador. Eu me sentia em um videogame, não sei como as pessoas conseguem fazer o cérebro fingir que está em um avião.

Nenhum desses métodos resolveu o problema. Em 2012, já no doutorado, me deu algum estalo. Procurei um psiquiatra, iniciei um tratamento com sertralina no dia a dia e Frontal no dia do voo e consegui fazer minha primeira viagem tranquila em mais de 10 anos. Fui a Buenos Aires para um congresso e eu estava feito pinto no lixo quando pousamos. No táxi que me levou ao hotel tocava um CD do Guns’n Roses e no dia seguinte comprei esse mesmo CD. Até hoje, quando ouço, recupero a sensação de savoir vivre que tive naquele momento.

Os remédios têm seu mérito, mas alguma disposição interna deve ter colaborado com o tratamento. Fobias se devem a ansiedade exacerbada e ansiedade é angústia por falta de controle.

Em 1998, sofri um sequestro-relâmpago na saída do trabalho, às seis da tarde, em um bairro nobre de Curitiba. Fiquei um par de horas sob o controle de dois sequestradores, tendo de obedecê-los e sem poder reagir. Mantive a calma durante todo o tempo e não fui ferida. Nos dias seguintes andei de carro normalmente e não tive receio de passar pelos locais do sequestro. Porém, durante muito tempo permaneci revivendo o episódio e pensando em coisas que eu poderia (claro que não poderia) ter dito ou feito e que me deixariam um pouco mais por cima da situação. Imaginava formas de xingar e destratar os caras, de enganá-los, de me vingar deles. Talvez a fobia tenha vindo daí, do trauma de estar completamente à mercê de algo ou alguém — como se fica dentro de um avião durante o voo.

Em 2012, pode ser que eu tenha recuperado a sensação de controle perdida naquela ocasião. É por isso que em 2013 eu consegui voar para Bolonha para o doutorado-sanduíche. Foi um período de deslumbramento que soa meio ingênuo para outras pessoas que, perto dos 40, já tinham feito muitas e muitas viagens, já tinham visto muita neve e já tinham sorrido de imprecações em diferentes línguas.

Eu mesma tive essa percepção em relação às primeiras-vezes de outras pessoas com experiências que para mim eram corriqueiras. Essa percepção um pouco cínica é sempre acompanhada de uma pontinha de inveja, porque o deslumbre das primícias nunca mais se repete. As experiências podem permanecer gratificantes e ganhar outros sentidos, mas nunca mais aquele. É tipo carro zero, perde imediatamente o valor assim que coloca as rodas pra fora da concessionária.

Se não fosse pela fobia, teria eu ido antes para a Europa? Não sei. Viagens aéreas ainda são, ao menos no Brasil, um privilégio de classe, mesmo na classe econômica. A classe não destina apenas o poder aquisitivo das pessoas, mas também o gosto pelas coisas e a percepção de permissão de acesso a elas.

Tive uma infância com teto, comida, roupa, segurança, saúde, educação, lazer e algumas viagens (de carro ou de ônibus). Diferentemente de muitas de minhas colegas de infância, não precisei trabalhar na adolescência e pude dedicar todo meu tempo aos estudos. Porém, tenho a lembrança de intuir uma sentença: “isso não é pra você”.

Acho que nunca me foi dito explicitamente e não sei discriminar exatamente quais eram as coisas do mundo que a sentença me vetava. Mas sei que os descendentes dos imigrantes italianos de Santa Felicidade, mesmo aqueles mais prósperos e endinheirados, deixavam de se permitir muita coisa. Alguns anos antes de sua morte, em 2015, minha mãe, já uma senhora aposentada e com situação financeira estável, sentia-se culpada por pegar táxi. Ela certamente tinha necessidade desse conforto e condições de arcar com ele, mas algo na sua formação de classe a impedia de desfrutar disso. Ah, ela também não voava, ao menos não depois daquela viagem para Brasília em meados dos anos 1970.

Desde que a modernidade passou a permitir o acesso ao dinheiro mesmo àqueles que não têm berço, as dinâmicas de classe vêm constantemente se encarregando de criar barreiras de mobilidade social que não se baseiem apenas no poder aquisitivo. A barreira simbólica ajuda a manter as pessoas em seus lugares. O dinheiro dá acesso ao consumo, a consciência dá acesso à cidadania. Hoje, consigo entender melhor por que a afluência dos pobres aos aeroportos incomodou tanto no Brasil. Não foi só porque o pobre passou a ter dinheiro para comprar a passagem. É porque ele percebeu que aquilo também “era para ele” sim senhor. E quando o pobre percebe isso, sabe Deus o que mais ele não vai querer.

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