O Natal dos desolados

Adriana Meis
5 min readDec 25, 2021

Curitiba é um dos destinos preferidos dos brasileiros que desejam viajar no Natal. A cidade vem se aprimorando em oferecer uma experiência que reforça os sentimentos atribuídos à data. É muita árvore, muita luzinha, muitas referências a uma infância nostálgica que provavelmente nenhum de nós jamais viveu. É um lugar que propõe um Natal idealizado (acho que isso é um pleonasmo).

Porém, quanto mais forte a promessa de felicidade, mais desgraçada é a pessoa que não está feliz nessa data. Agora imagine sentir-se triste em uma data que prescreve alegria, e ir, com esse espírito, a um lugar normalmente animado, mas que no Natal fica desolado. Curitiba também oferece essa experiência a seus moradores, e é uma experiência que pode ser promovida como destino natalino a desventurados de todo Brasil.

Alguns anos atrás, dezembro me pegou curtindo uma imensa dor de cotovelo. A ferida já tinha um par de meses, mas voltara a infeccionar pois o antigo bem-amado — que antes detestava Natal — , querendo muito sagazmente se safar da miséria emocional dessa época, já encontrara outro alguém com quem tirar foto ao lado do pinheirinho. Então, na manhã de 25 de dezembro daquele ano, eu acordei me sentindo personagem de uma música da Maysa. Como o cachorro não estava nem aí para o "meu mundo caiu", botei bandeide na ferida e fui passear com ele. Era uma manhã linda como a de hoje, ensolarada, quente e de céu azul.

Fazia poucas semanas que eu me mudara para um bairro próximo ao centro da cidade. Então escolhi como destino do passeio o Largo da Ordem, um dos lugares símbolo de animação em Curitiba. Por ali circula todo tipo de gente; tem lojas, bares, restaurantes, casario colonial, praça, chafariz, igreja. E aos domingos tem a feira de artesanato e os músicos de rua. De noite tem a boemia, de dia as pessoas que vão e vêm do trabalho, dos estudos, dos afazeres da vida cotidiana. É um lugar vibrante, e acho que era disso que eu ia atrás no passeio, mesmo sabendo que no Natal as coisas não funcionam do mesmo jeito.

Cheguei no bebedouro, bem no centro do largo formado pela igreja e pelo casario, e só tinha eu na rua. Nem os noias, nem as pessoas que moram embaixo das marquises, nem um infeliz que precisasse trabalhar no Natal passava por ali. Poucas vezes na vida (o que é uma boa notícia, claro) eu me senti tão desolada quanto naquela manhã e naquele lugar. Sentir-se triste numa data alegre, testemunhar o vazio de um lugar sempre cheio.

Só mais tarde fui racionalizar esse sentimento e cheguei à palavra desolação. Desolado pode significar tanto um espaço arrasado, destruído, quanto um sentimento de desamparo, de infortúnio. E me surpreendi ao perceber que o Largo da Ordem, numa manhã ensolarada de Natal, era a materialização emblemática da conjugação desses dois sentidos. Depois de algum tempo, descobri que tinha vivido na verdade um clichê narrativo. Sim, a dor de cotovelo é um deles, mas falo dessa coisa de ter escolhido talvez o tempo/lugar curitibano mais simbólico de desolação para ir macerar a autopiedade.

Em 1968, Sylvio Back escolheu justamente o Largo da Ordem vazio para nos ajudar a entender as angústias de Mário, personagem vivido por Reginaldo Farias em Lance maior. Mário trabalha em banco e estuda direito, mas é pobre. Quer transar com a empregadinha de loja, também pobre, cujo único capital de troca por ascensão social é a virgindade, mas quer casar com a burguesa, para poder ele mesmo conquistar essa ascensão. No trabalho, fica entre os colegas que planejam uma greve e o chefe que acena com uma promoção.

Mário tenta se sentir um pouco mais dono de si frequentando prostitutas. Depois de mais uma noite com elas, vemos Mário em um desalento pós-coito andando por um Largo da Ordem totalmente vazio (por volta dos 35 minutos de filme). A desolação é ainda maior porque comparece na imagem o sentido da destruição: em volta do antigo bebedouro de cavalos as pedras estão soltas.

Mário, personagem de Lance maior (1968), passa pelo Largo da Ordem depois de uma noite infeliz.

Em 2016 o diretor Paulo Machline escolheu o mesmo local e praticamente a mesma tomada aérea para nos fazer sentir a infelicidade advinda da crise existencial de outra personagem masculina: o Roberto (vivido por Marcos Veras) de O filho eterno. Roberto é pai de Fabrício, filho muito esperado nascido com Síndrome de Down, o que destrói as expectativas idealizadas de paternidade. Depois de ser o último cliente a sair de um bar já por fechar, e refletindo sobre a liberdade que perdeu com a chegada do filho, Roberto vai pelas ruas até chegar ao meio do Largo da Ordem e se senta no bebedouro de cavalos. Um Largo vazio, desoladíssimo, e tão escuro que quase não dá pra ver a personagem ali (por volta dos 16 minutos).

Marcos, personagem de O filho eterno (2016), senta no bebedouro de cavalos do Largo da Ordem depois de uma noite infeliz.

Diante de minha própria experiência e da sensibilidade do cinema, arrisco a dizer que Curitiba pode também promover, a moradores e turistas desafortunados, uma vivência de Natal mais próxima dos sentimentos de tristeza e de desolação que muitos sentem nessa época. As escolhas dos diretores dos dois filmes comprovam que o Largo da Ordem, quando vazio, é um ótimo cenário para curtir crises existenciais, dores de cotovelo, sofrimentos emocionais e todo tipo de mal-estar da civilização (como bem nos mostra Sylvio Back). E se a visita ao Largo acontecer em uma manhã ensolarada de Natal, a pessoa poderá sentir o espinho cravar sadicamente um pouquinho ainda mais fundo.

Mas nem todas as manhãs de Natal são desoladas no Largo da Ordem.

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