Uma ode às bibliotecas, um ódio pela gestão da pandemia

Adriana Meis
9 min readJun 12, 2021

Escrevi este texto em 26 de fevereiro de 2021. Faltavam poucas semanas para completarmos (oficialmente) um ano de pandemia de coronavírus no Brasil. Por essa época, em 2020, eu começava a me organizar para meu último ano no curso de Letras da UFPR. Emprestei dois livros da Biblioteca Pública do Paraná e deveria devolvê-los em 19 de março; no dia 16, tudo fechou. Quase uma volta ao redor do sol e mais de 250 mil mortos depois [e agora, em junho, quase 500 mil!], duas situações permanecem: a incompetência dos governos municipal, estadual e federal em lidar com a pandemia, e as portas fechadas da BPP.

Tinha ido até a biblioteca para buscar o Concerning famous women, versão em inglês, publicada em 1963 por Guido A. Guarino, de uma coletânea de biografias de mulheres escrita em latim por Giovanni Boccaccio por volta de 1360. Texto dificílimo de encontrar no Brasil, seja lá em que língua for; é uma preciosidade intelectual a biblioteca tê-lo, ainda que essa tradução seja considerada “problemática”. Já com o livro em mãos, fiquei passeando pela estante de literatura italiana. Me interessei por Categorias italianas, um volume de ensaios de Giorgio Agamben, e o emprestei junto com o Boccaccio. Fui guardiã de ambos por 6 meses, até quando a biblioteca voltou a receber devoluções e eu os retornei, incluindo um bilhetinho no Concerning com a sugestão de que fosse passado para o setor de obras raras.

Apesar dessa descrição, o foco aqui não é exatamente quais volumes tomei da biblioteca. Ela serve mais para ilustrar critérios para seleção de livros quando temos um acervo deles — biblioteca, livraria, sebo — à nossa disposição. O Boccaccio era uma busca orientada; o Agamben foi obra do acaso. Tem livros que desejamos e precisamos e é ótimo encontrá-los para comprar ou emprestar. Mas também é bom quando deixamos que o acaso faça sua curadoria e que ele nos surpreenda com sugestões que não buscaríamos ativamente. Acontece quando a gente fuça um balaio de ofertas em uma livraria, quando escaneia a prateleira de um sebo, quando percorre os corredores da biblioteca “só pra ver o quem tem ali”.

Porém, nem toda biblioteca permite esse flanar entre estantes.

Em abril de 2019 participei de um congresso em Buenos Aires sobre o alemão Aby Warburg (1866–1929), o historiador da cultura que mostrou a conversa que as imagens estabelecem entre si através do tempo e do espaço, independentemente dos processos de transmissão linear. Suas teorias foram propostas a partir de um imenso repertório de imagens e de livros. Para organizar sua grande e preciosa biblioteca (hoje no Instituto Warburg, em Londres), Aby adotou um critério distinto daquele de autoria ou área do conhecimento. O ordenamento era pela afinidade que ele identificava entre os assuntos, o que também orientava suas análises iconográficas.

Tendo Buenos Aires a imensa e emblemática Biblioteca Nacional Mariano Moreno, nada mais natural que o congresso acontecesse lá; na verdade, mais do que sede, ela foi promotora do evento. O edifício atual da instituição bicentenária é um imenso cogumelo quadrado — ou nave espacial — de estilo brutalista, que ocupa um quarteirão e se destaca na paisagem da Recoleta. O projeto é dos anos 1960, mas a construção só foi concluída em 1992.

Vista do edifício da Biblioteca Nacional Mariano Moreno, no bairro da Recoleta, em Buenos Aires, em uma manhã de sol. O edifício, que parece um cogumelo quadrado, está sobre o fundo azul do céu, e do lado direito há o brilho do sol. A vista do edifício é de baixo para cima, o que destaca a sua monumentalidade.
Acesso à Biblioteca Nacional Mariano Moreno pela rua de trás do edifício.

Ao fuçar o site da biblioteca antes da viagem, descobri que ela abriga um espaço dedicado à narrativa policial: o centro de documentação H. Bustos Domecq. O nome — até então, para mim, de referências apenas etílicas — é o pseudônimo sob o qual Adolfo Bioy Casares e Jorges Luis Borges escreveram diversas obras, dentre elas alguns livros policiais. Ora ora se eu, alfabetizada por Agatha Christie, não passaria um bom tempo do congresso entre os volumes dessa divisão.

Só que não.

Você entra nesse centro de documentação apenas se fizer um agendamento para realizar pesquisas. Não dá para ir lá e ficar vagando pelas prateleiras para “ver o que tem”. E isso tampouco é possível na parte do acervo disponível para empréstimo.

Biblioteca Nacional Mariano Moreno vista de perto; aparecem no enquadramento da foto os imensos pilares de concreto aparente que sustentam a parte maior do edifício, que é toda envidraçada.
O Purgatório e o Paraíso.

Se o grande champignon de concreto fosse organizado de acordo com a Divina comédia, os livros ficariam no inferno (a parte subterrânea do edifício), as salas de eventos no purgatório (os pilares do cogumelo) e os centros de documentação e as salas de leitura e empréstimo de livros no paraíso (o chapéu), com uma bela vista do rio da Prata. Você chega no paraíso, escolhe seu livro no terminal de consulta, faz o pedido e aguarda. Seus livros vêm lá do inferno de elevador, como se você tivesse recebendo um prato numa lanchonete com cozinha no subsolo. E não se tem acesso a esse subsolo — a não ser que você faça uma visita guiada.

Da esquerda para a direita: área com terminais de consulta ao acervo e com sofás para espera dos livros que você solicitou; painel que avisa sobre a chegada dos livros solicitados, que vêm de elevador do subsolo (leva em torno de 10 minutos); sala de leitura e estudos. Alguns dos móveis e luminárias dessa sala são da época de fundação da biblioteca, no século XIX.

Ao ficarem no subterrâneo, os livros (e outros volumes como periódicos, fotografias, negativos, mapas, partituras) não pesam na estrutura. E seria um peso considerável. São por volta de 1 milhão de volumes, e a capacidade do espaço é para 3 milhões. E já que não são os próprios leitores que procurarão os livros nas prateleiras, o sistema de catalogação segue métodos mais convenientes para quem trabalha na biblioteca do que para os usuários. Como, por exemplo, critérios posicionais.

Os livros foram (e são) organizados por ordem de chegada; cada nova aquisição é colocada no espaço vazio da prateleira da vez, como se houvesse um loteamento em que as casas vão sendo construídas uma após a outra, até preencher uma rua, e depois começa tudo de novo na próxima rua. O único critério adotado nesse momento é o tamanho do livro: eles buscam agrupar grandes com grandes, pequenos com pequenos. Então cada livro é numerado de acordo com sua ordem de chegada na prateleira; o código de barras aplicado no livro tem esse número, um indicador da face da estante, o número da estante e o setor em que está localizada no depósito. Ou, ainda pensando na casa: o número da casa (se for ímpar ou par saberemos o lado da rua), a rua, o quarteirão, o bairro. Como resultado, um Arthur Hailey pode ser vizinho de Plotino, filosofia fica próximo de didática, empregabilidade com crise ecológica; uma vizinhança que agradaria a urbanista Jane Jacobs devido à sua diversidade.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: a distribuição dos livros nas estantes; detalhes das etiquetas com o número de cada livro naquela prateleira (dá pra ver a "mistura" de assuntos); o código de cada livro segundo sua posição no depósito da biblioteca; pedidos de livros separados para serem enviados pelo elevado até o "paraíso".

De certa forma, a biblioteca argentina lembra um pouco aquela da abadia de O nome da rosa, inacessível aos leitores e com alguns volumes franqueados apenas a iniciados. No livro de Umberto Eco — ele mesmo uma biblioteca ambulante e dono de outra que, cinco anos após sua morte, passa a ser compartilhada entre a Biblioteca Nacional Braidense, em Milão (os livros antigos), e a biblioteca da Universidade de Bolonha (livros modernos e arquivos) — , a biblioteca também tem uma organização baseada em critérios “geográficos”. Só que, em vez de loteamento suburbano, como a BN, ela é um labirinto; em vez de seus setores se organizarem em quarteirões, dividem-se de acordo com as regiões do mundo conhecidas no Medievo. A geografia, na biblioteca da abadia, é relacionada ao livro — a origem da obra ou de seu autor — , enquanto que na portenha é a da biblioteca em si.

De qualquer forma, ambas diferem das outras, como a nossa BPP, em que a distribuição é por assunto (os códigos do sistema catalográfico) e na qual a gente pode passear pelas prateleiras para “ver o que tem”. Obviamente que o acaso, quando faz a sua curadoria, já opera em uma seleção prévia: os livros daquela biblioteca, o catálogo daquela livraria, os encalhados do balaio de ofertas, o acervo comprado/recebido pelo sebo. É um aleatório relativamente determinado, mas que só nessas condições pode ser proveitoso para quem quer encontrar algo. Imagino que esse “ver o que tem” não funcionaria da mesma forma entre as prateleiras da BN, em que tudo se mistura e o acaso temático já vige na distribuição. Seria desgastante e pouco proveitoso contar com esse curador ao se percorrer grupos de estantes organizadas elas mesmas a partir de um acaso temático. Greimas, o semioticista, já nos dizia em Da imperfeição: uma vida de constante quebra de rotina (fraturas ou escapatórias) é tão sem sentido quanto a continuidade da rotina.

A Biblioteca Nacional, assim como a Biblioteca Pública do Paraná, também esteve fechada desde o início da pandemia — lá, desde 12 de março de 2020. Diferente da nossa, ela reabriu por algumas semanas (de 3 a 28 de março de 2021) e depois fechou novamente, permanecendo assim até agora. Os portenhos devem estar sentindo falta. Porém, desconfio de que menos do que sentimos falta da BPP. Não porque nós, aqui, sejamos mais apegados à leitura do que eles (dizem as estatísticas que é o contrário), e sim porque o “nós”, aqui, inclui pessoas que recorrem à biblioteca por outros motivos, além da consulta e empréstimo de livros. E para essas pessoas, a acessibilidade da biblioteca é um fator determinante.

Para entrar no cogumelo da Biblioteca Nacional é preciso mostrar o documento, fazer um cadastro e depois subir por escadas ou elevadores até as áreas em que se pode estar para ler, fazer empréstimos e consultas. O próprio acesso à entrada do prédio é mais difícil, já que ele está bem acima do nível da rua. A Recoleta, apesar de ser central, não deixa de ser um bairro e uma área que não se pode chamar de popular. Ela não é, digamos, espacialmente acessível. Isso não impede a entrada das pessoas, mas também não a facilita.

A BPP não. Ela fica no centro popular da cidade. Se não estiver com bolsa ou sacola você pode passar direto pela porta, à qual se chega por escadas ou por rampa que pouco se elevam do nível da rua. Há pessoas que vão na BPP não apenas para ler ou emprestar livros, mas também para ler jornais, descansar entre um afazer e outro no centro da cidade, usar o banheiro, tomar água, aliviar os pés de um vai-a-vem na busca de emprego, proteger-se da chuva e escapar do frio.

Vista da fachada do prédio da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, mostrando sua porta de entrada próxima da rua.
Fachada da Biblioteca Pública do Paraná, na rua Cândido Lopes, no centro de Curitiba. Pela escada central ou pelas rampas laterais, chega-se facilmente à porta de entrada. Foto do blog Fotografando Curitiba.

Assim como outras bibliotecas públicas — em Bolonha, no inverno ou no verão, pessoas em situação de rua passam os dias na Salaborsa — , a BPP é lugar de acolhida e repouso não condicionados pelo dinheiro. E até nisso — além da “socialização” de livros — a biblioteca é uma instituição que nos permite vislumbrar (apenas vislumbrar, de muito, muito longe) um modo de vida pautado por lógicas outras que não a da propriedade privada.

E então podemos voltar ao tópico que iniciou este texto: a covid-19. Quando as decisões de gestão da pandemia são tomadas com base em critérios “econômicos”, tudo aquilo que não diz respeito à acumulação ou proteção de capital privado concentrado permanece menos importante. A Biblioteca Pública estar fechada até agora é um dos exemplos disso, ainda que seja um exemplo até fútil diante de outras necessidades mais urgentes, que não estão sendo atendidas devido à escala de prioridade do poder público. “Ah, mas a Biblioteca Nacional argentina também está fechada”. Sim. Mas: 1) tentaram abrir; 2) ela é bem mais “fechada” do que a nossa; poderíamos tentar coisas aqui que lá são inviáveis.

Lojas de departamento, por exemplo, também são ambientes fechados e que têm corredores de prateleiras com volumes para serem retirados pelas pessoas, não?

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