Revisão textual: uma explicação ilustrada por dois casos reais

Adriana Meis
9 min readSep 26, 2023
Um feminismo decolonial, de Françoise Vergès, e Textos: tipos e protótipos, de Jean-Michel Adam: obras que li como leitora e nas quais encontrei situações que me parecem interessantes para explicar as dimensões do trabalho de revisão textual.

Durante o tempo em que trabalhei para o Núcleo de Concursos da UFPR, era muito comum que se pedisse às revisoras que fizessem a “revisão ortográfica” dos textos. Os pedidos vinham de quem talvez soubesse o que queria, mas sem saber muito bem como expressar o pedido.

Revisão ortográfica refere-se à correção da grafia das palavras, algo que hoje o Word faz de modo bastante satisfatório. Para que os textos alcancem seus objetivos, normalmente eles precisam de intervenções que vão além da ortografia; mesmo quem escreve muito bem acaba se beneficiando dessa intervenção, pois a revisão não é só outra pessoa a ler um texto, é outra atitude diante de um texto. E é por isso que grandes escritoras e escritores são revisados nas editoras. E é por isso que quem escreve não consegue ser o melhor revisor do próprio texto (como é o caso do texto que você está lendo agora).

A associação da revisão à correção ortográfica reforça a ideia de que esse trabalho consiste em limpar os erros, quando, na verdade, talvez possamos falar mais apropriadamente em adequação, e adequação a certos parâmetros variáveis quanto ao seu grau de normatividade. Com esse olhar, mesmo a ortografia, algo que parece tão absoluto e consolidado, estará sujeita mais a adequação do que a correção. Pode haver alguma variação em grafia de palavras dependendo da fonte que se consulte, e nem sempre o parâmetro mais afim a um determinado texto é o normativo (os dicionários).

Portanto, um dos aspectos da revisão é a adequação do texto segundo seus objetivos de circulação e comunicação, e essa adequação acontece com base em parâmetros de diversas ordens. Em termos linguísticos e gramaticais esses parâmetros podem ser a norma-padrão da língua ou a norma culta da língua (sobre a diferença entre as duas, ver essa entrevista já antiguinha com o linguista Marcos Bagno), o manual da editora, o manual de normalização da universidade. Mas há também dois outros tipos de parâmetro: o do texto em si que está sendo revisado, pois a sua organização interna propõe algumas regras, recorrências e entendimentos, e o dos inúmeros outros textos com os quais o texto que está sendo revisado se relaciona.

Dentro da frase, dentro do texto, entre textos: dimensões da revisão e de seus parâmetros

Na prática, portanto, a revisão não é correção com base em regras absolutas; é a adequação com base em parâmetros, que por sua vez variam, como já disse, de acordo com os objetivos de circulação e de comunicação do texto. A revisão atua na apreensão dos mecanismos de produção de sentido operados pelo texto e na adequação das manifestações linguísticas desse texto à melhor expressão desse sentido.

Como o sentido do texto se produz por suas relações intratextuais (dentro do próprio texto) e intertextuais (entre os textos), é também nessas instâncias que atua a revisão. Eu dividiria a etapa intra em intrafrástica e intratextual: a coesão e coerência da frase em si e a coesão e coerência do texto segundo suas lógicas internas.

Digamos que eu encontre, num texto, a seguinte frase: “subi a porta e fechei a escada”. No nível intrafrástico, posso dizer que se trata de uma frase gramaticalmente correta. No entanto, ela é semanticamente estranha. Então está errada? Devemos corrigir a ordem dos verbos?

Antes de pensar em “erro”, a revisão deve ir em busca de pistas que eventualmente autorizem a construção estranha naquele texto, pois ela não está ali de graça. Aí entra a dimensão intratextual, regida pela lógica interna ao texto. Nessa lógica, e no texto hipotético proposto, veremos que existem outras frases com o mesmo tipo de artifício: “tirei minhas orações e recitei meus sapatos / desliguei a cama e deitei-me na luz”. Trata-se de um poema no qual um eu lírico, por estar apaixonado, faz confusão com os preparativos na hora de dormir, e aí sim, na dimensão do poético, essas frases fazem todo o sentido.

O exemplo talvez seja pueril, mas acho que é didático, e está no capítulo sobre coesão e coerência do livro Lutar com palavras, de Irandé Antunes (recomendo demais).

Caso real 1: estranhamento com base na lógica interna do texto

Posso mencionar um outro caso para ilustrar esse parâmetro que advém da dimensão intratextual. Trata-se de uma passagem do livro Um feminismo decolonial, de François Vergès, o qual li atenta e entusiasmadamente pela importância das coisas ali escritas (e que rendeu inclusive uma resenha).

Vergès faz uma crítica muito contundente aos feminismos brancos e sua aliança com o capitalismo e o patriarcalismo colonial. Esse é teor do texto; apreendido esse teor, as passagens que destoam disso chamam a atenção, são estranhas. Há algumas delas no livro, cito apenas uma, na parte em que a autora faz uma crítica ao Sejamos todos feministas, de Chimananda Ngozi Adichie

“Por um lado, ele [o livro da Chimananda] propõe uma ideia de feminismo inclusivo que obscurece toda a crítica aos feminismos negro e decolonial” (p. 93).

Gramaticalmente, a frase está corretíssima. O significado dela é: a ideia de feminismo de Chimananda obscurece a crítica que é feita aos feminismos negro e decolonial; ou seja, a ideia de feminismo de Chimananda é boa, é aprovada pela autora, porque obscurece, apaga as críticas que são feitas ao feminismo que Vergès está defendendo.

No entanto, a frase imediatamente anterior é:

“Em outras palavras, o argumento de Sejamos todos feministas é falacioso por dois motivos”.

Juntando-se essa frase anterior com o argumento que se vinha desenvolvendo de modo consistente no livro, não fazia sentido que Vergès estivesse aprovando a ideia de Chimananda; também não fazia sentido chamar de falacioso o que é aprovado, chancelado positivamente.

Algo ali parecia errado, então busquei a edição em francês do texto de Vergès para conferir. Encontrei-a, e também a solução do problema, pois a frase é a seguinte:

“D’une part, il propose une idée du féminisme inclusif qui occulte toute la critique des féminismes noir et décolonial”.

Trecho de edição francesa de Um feminismo decolonial (Un féminisme décolonial, La Fabrique éditions, 2019).

Segundo Vergès, o livro de Chimananda oculta não a crítica AOS, e sim a crítica DOS feminismos negro e decolonial. Ou seja, ao propor um feminismo que desconsidera as desigualdades estruturais (segundo Vergès), o livro de Chimananda oculta a crítica feita PELOS feminismos negro e decolonial a essas desigualdades. É por isso que o livro daquela está criticando e desaprovando o livro desta; o sentido muda completamente.

Em resumo: na dimensão intrafrástica (no interior da frase), está tudo ok, não há “erro” nem necessidade de adequação. Porém, na dimensão intratextual (no interior do texto, no âmbito das suas relações internas e dos sentidos que ele produz), as coisas não batem: seria uma ocasião de intervenção da revisão com base em um dos parâmetros que devem ser adotados, que é aquele estabelecido pela lógica interna do texto. Reforço: vejam que não é um problema linguístico, gramatical ou ortográfico; é uma questão de comunicação, de sentido.

Caso real 2: estranhamento com base na dimensão intratextual e solução com base na dimensão intertextual

Mais um exemplo, agora retirado da edição brasileira de 2019 do livro Textos: tipos e protótipos, de Jean-Michel Adam.

A obra atualiza a noção e os esquemas de sequência textual que Adam já vinha desenvolvendo há alguns anos. O linguista propõe cinco tipos de sequência textual a partir dos quais os textos se estruturam em seu nível mesotextual: sequências descritiva, narrativa, argumentativa, explicativa e dialogal. Na teorização da sequência descritiva, Adam trata dos recursos que promovem a coesão de uma descrição em termos de progressão e hierarquização dos elementos. Para isso, dá como exemplo o texto de um anúncio publicitário da enciclopédia Gallimard veiculado nos anos 1980. Na edição brasileira, o texto do anúncio está assim:

Narrativas, acontecimentos, testemunhos, poemas, correspondências, bibliografias, datas, arquivos, análises, anedotas, lendas, contos, críticas, textos literários…

Documentos, fotos, croquis, gravuras, cartas, esquemas, pastéis, caligrafias, planos, desenhos, aquarelas, obras de arte…

Paixões, conflitos, êxitos, fracassos, façanhas, história, presente, passado, futuro, explorações, sonho, evasão, ciência, aventuras, heróis e desconhecidos.

Descobertas Gallimard. […] (p. 81).

Quando li, me chamou a atenção aquele “cartas” no segundo bloco. Vejam que tudo ali se refere a coisas visuais, menos o “cartas”.

Minha leitura era de leitora, não de revisora; meu interesse era na teoria ali exposta, pois ela está me apoiando no estudo sobre biografias medievais que tenho conduzido nos últimos anos. Debito esse radar para o estranhamento na conta da semiótica: a formação nessa disciplina nos treina para selecionar, mesmo não deliberadamente, o que há de diferente na recorrência (o sentido está na diferença, mantra de Saussure). E aquele “cartas” destoava das demais palavras daquele segundo bloco; além disso, havia um “correspondências” no primeiro bloco, o que já dava conta desse “significado”, digamos assim. Vocês podem argumentar que “caligrafia” também destoa do visual, mas na verdade não: caligrafia é a dimensão visual da escrita.

Não era uma situação relevante para o sentido do texto como um todo, não afetava as ideias do autor, como no caso do livro de Vergès. Assim, mantive a pulga quieta atrás da orelha e continuei a leitura. Logo a seguir, a elaboração de Adam a respeito desse exemplo:

“Três blocos temáticos, abarcando o verbal, o não verbal e os temas abordados, confirmam a segmentação do plano de texto escolhido (três parágrafos e um tipo de conclusão em dois tempos) (p. 81).

Ora, Adam, que teve contato com o anúncio original, reforçava o entendimento de unidade semântica de cada bloco. A pulga acordou, achei que o estranhamento se justificava. A essa percepção da diferença na recorrência somaram-se os resquícios do francês que eu estudei um dia; sabe-se que cartes, em francês, pode ser “cartas”, mas também "mapas". Na edição francesa do livro efetivamente a palavra é cartes. Então, se eu fosse a revisora dessa obra, teria feito uma anotação para a possibilidade de ali caber melhor mapas do que cartas.

Edição francesa de Textos: tipos e protótipos (Les textes: types e prototypes, Armand Colin, 2011).

Nessa situação de uma hipotética revisão do livro de Adam, temos exemplos da atuação dos parâmetros intratextual e intertextual.

No primeiro caso, é a lógica interna do texto que sugere a inadequação: há um texto dividido em três blocos, cada um com palavras de um mesmo campo semântico, e há uma palavra do campo do verbal incluída no campo do não verbal; além dessa percepção que vem da própria leitura de revisão, o autor da obra oferece tal chave de leitura.

Na dimensão intertextual, está o conhecimento da língua francesa. A revisão não apenas percebe a inadequação, mas constrói uma hipótese para ela e propõe a solução. Mas, veja: não é necessário saber francês para perceber a inadequação. O francês é um plus a mais.

Profissionais de revisão, portanto, adotam como parâmetro em seu trabalho muito mais do que as gramáticas e manuais; é uma atividade que depende 1) de saber apreender e sistematizar a lógica interna de um texto para poder constitui-la como parâmetro na dimensão intratextual, e que depende também 2) da formação e da cultura geral de quem realiza esse trabalho. Essa última competência pode vir de títulos e diplomas, mas não necessariamente, e comumente não necessariamente — e aqui fico lembrando do revisor de A história do Cerco de Lisboa, de José Saramago — , sendo por isso tão difícil atribuir-lhe valor de mercadoria.

Por fim, eu queria muito reforçar que esses casos foram apresentados aqui não para apontar defeitos no trabalho das pessoas que traduziram e revisaram esses livros. Primeiro devido à própria peculiaridade desse trabalho e dos resultados que se pode esperar dele — o que é uma discussão que envolve concepções bastante discutíveis sobre “originalidade” e “correção”, algo pra um outro e mais longo texto; segundo, porque não se sabe das condições em que tal trabalho foi realizado. É preciso reconhecer simbólica e materialmente a tradução e a revisão, cuja realização requer tempo, concentração, descanso e oportunidades de se aprimorar. E ninguém consegue fazer isso ganhando pouco.

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